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Livro “A ignorância” de Milan Kundera

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Livro “A ignorância” de Milan Kundera
Livro “A ignorância” de Milan Kundera

Título original: L’ignorance

Primeira publicação: Abril de 2000

Tradutora: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca

Editora: Companhia de Bolso (29/01/2015) – 128 páginas

ISBN13: 9788535925272

Sinopse: Namorados de adolescência, Josef e Irena passam vinte anos longe de sua terra natal, ele vivendo na Dinamarca, ela em Paris. Irena reencontra Josef por acaso no aeroporto de Paris. Os dois decidem retornar a Praga, reerguida segundo as regras capitalistas depois da queda dos regimes comunistas do Leste europeu, em 1989. Em comum, eles têm uma história de exílio e um sentimento profundamente nostálgico em relação à paisagem tcheca. Reviver essa relação de amor significa refazer todo o percurso da separação. Neste romance sobre a memória, Milan Kundera subverte a noção de nostalgia. O escritor relembra a etimologia da palavra, que em sua origem grega remete ao “sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar”. Esse sentimento liga-se também à ignorância: só há nostalgia daquilo de que não temos mais notícia. Como afirma o narrador, “acaso” é um outro modo de dizer “destino”. O fascínio que as coincidências e os pequenos retornos exercem é aquele da consciência do presente e de sua ligação com o passado. Na memória, os acasos se harmonizam e ganham beleza.

 

Milan Kundera é um dos maiores escritores do pós-guerra. Nascido em Brno, na região da Morávia, antiga Tchecoslováquia (hoje República Tcheca), ele conquistou fama internacional com o romance “A Brincadeira” (1967), que lhe rendeu a proibição de publicar em seu país e a perda da nacionalidade. Seus romances geralmente tratam de escolhas e decepções. Em seus livros é recorrente a crítica ao regime comunista e à ocupação russa de seu país em 1968. Em 1970, o escritor publicou o romance “Risíveis Amores”.

Refugiou-se em Paris em 1975, onde lecionou a disciplina arte do romance na École des Hautes Études en Sciences Sociales. A partir de 1980, quando se naturalizou francês, passou a se dedicar à tradução para o francês de seus textos anteriores, escritos originalmente em tcheco.

Com “A Insustentável Leveza do Ser” (1984, adaptado para o cinema em 1987), tornou-se conhecido mundialmente. Em 1987, recebeu o Prêmio Nacional das Letras da Áustria. Outras obras importantes do autor são “O Livro do Riso e do Esquecimento”, “A Valsa do Adeus”, “A Imortalidade”, “A Lentidão”, “A Vida Está em Outro Lugar” e “A Cortina”.

 

Quando li “A Insustentável Leveza do Ser“, acho que me apaixonei por Milan Kundera. Sei que existe sempre o risco de gostarmos do livro mais famoso de determinado escritor e, depois, outros livros nos decepcionarem. Persisti em conhecer mais sobre sua obra e li “A Vida Está em Outro Lugar“, outro livro que me conquistou.

O livro atual, “A ignorância” foi o terceiro. Sei que a crítica e os comentários sobre esta obra não são tão bons quanto sobre as obras que eu li anteriormente. Concordo que a história do livro é menos profunda.

Mas o que eu gosto em sua escrita é a estrutura em capítulos curtos e suas colocações quase como se ele estivesse fazendo um estudo filosófico através de uma obra ficcional. É este aspecto que me cativa imensamente.

Seus personagens são profundos, bem construídos, com aspectos psicológicos bem colocados. E, em meio à história de vida, de infância e do amadurecimento, surgem todas as questões de vivências históricas, políticas, pessoais, de relacionamento. Nos três livros que li, este mesmo processo me parece presente.

Em “A ignorância”, dois exilados da República Tcheca, com histórias independentes, que saíram do país na época da ocupação russa, voltarão ao país para visitá-lo e rever os familiares, depois de o comunismo ter caído e do país estar aberto ao mundo novamente.

Josef e Irena se encontrarão no aeroporto, ele indo da Dinamarca para Praga e ela de Paris para Praga. Percebe-se que eles já se conheceram em algum momento do passado, mas este mistério será desvendado apenas no final. Chegando à República Tcheca, cada um vai reencontrar sua família e rever os locais de que ficaram distantes por tantos anos.

As lembranças voltam. Mas eles percebem que não pertencem mais ao país. E vivem a sensação de não ter uma pátria, já que são vistos como estrangeiros nos países onde escolheram viver e não pertencem mais ao país onde nasceram. Todos os que continuaram no país, que enfrentaram o comunismo e suas dificuldades, têm uma história própria, sofrida; para eles, não há interesse em saber sobre os que fugiram, os que escolheram evitar o sofrimento do regime. Mesmo que para os exilados a vida tenha sido extremamente difícil, para os que ficaram no país, parece que eles escolheram a fuga. Certamente não é algo fácil.

Josef vai reencontrar seu irmão. Mas o contato é tão difícil e superficial, que ele não consegue arrumar uma ocasião para contar que está viúvo, que sua esposa dinamarquesa morrera recentemente de câncer. E que ele vivia em um país que não era o seu, cuja esposa tinha falecido e com tudo à sua volta lembrando-o dela.

Imagino a emoção de dois seres que se reencontram depois de muitos anos. Outrora se frequentavam e portanto pensavam que estavam ligados pela mesma experiência, pelas mesmas lembranças. As mesmas lembranças? É aqui que começa o mal-entendido: eles não têm as mesmas recordações; ambos retêm do passado duas ou três pequenas situações, mas cada um retém as suas; suas lembranças não se parecem; não se encontram; e, mesmo quantitativamente, não são comparáveis: um se lembra do outro mais do que este se lembra dele; primeiro porque a capacidade da memória de cada um difere de um indivíduo para outro (o que ainda seria uma explicação aceitável para cada um deles), e também (e é mais penoso admitir isso) porque eles não têm, um para o outro, a mesma importância.

As memórias, as lembranças e como queremos construí-las (já que alteramos nossas vivências anteriores com sentimentos que estiveram envolvidos) são aspectos muito individuais. Cada um sente um mesmo evento de uma forma diferente. E, se ainda houver um abismo de tempo entre duas pessoas, todo esse passado fica mais confuso. Então, além das histórias pessoais e do reencontro com suas respectivas famílias, existe este reencontro entre Josef e Irena, mas que tem uma carga emocional muito diversa para cada um deles.

O livro pode não ser o melhor do autor. Mas é um bom livro e permite fazer muitas reflexões.

Vou encerrar com um dos melhores trechos:

Sobre o futuro todo mundo se engana. O homem só pode ter certeza do momento presente. Mas será realmente verdade? Ele pode conhecer verdadeiramente o presente? Será capaz de julgá-lo? Claro que não. Pois como é que aquele que não conhece o futuro pode compreender o sentido do presente? Se não conhecermos o futuro a que o presente nos conduz, como podemos dizer que este presente é bom ou mau, que merece nossa adesão, nossa desconfiança ou nossa raiva?

 

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