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Livro “A Besta Humana” de Émile Zola

Livro “A Besta Humana” de Émile Zola
Livro “A Besta Humana” de Émile Zola

Título original: La Bête humaine

Primeira publicação: 1890

Tradutor: Jorge Bastos

Editora: Zahar (2014) – 368 páginas

ISBN13: 9788537812914

Sinopse: França, 1870. Atormentado pelo desejo de matar as mulheres por quem se sente atraído, o maquinista Jacques Lantier se refugia no comando de sua Lison, a possante locomotiva a vapor com que periodicamente cruza a linha Paris-Le Havre. Os trilhos sobre os quais roda fazem com que seu destino se cruze com o da bela e cruel Séverine, e determinam as vidas dos tocantes personagens do livro. Émile Zola é o grande mestre do naturalismo francês, gênero especializado em exacerbar as fraquezas morais dos indivíduos e as realidades sociais mais degradadas. “A besta humana” faz parte da saga naturalista Os Rougon-Macquart, o portentoso projeto literário de Zola ao qual pertencem também outros clássicos como “Germinal” e “Nana”.

 

Émile François Zola nasceu em Paris, França, em 02 de abril de 1840. Ele foi um influente romancista francês, sendo o mais importante do Naturalismo e uma figura de destaque na liberalização política da França. Morreu em 29 de setembro de 1902, também em Paris.

Mais de metade dos romances de Zola faziam parte de um conjunto de 20 livros coletivamente conhecidos como Les Rougon-Macquart. Ao contrário de Balzac que, no meio de sua carreira literária, sintetizou seu trabalho em La Comédie Humaine, Zola, desde o início, aos 28 anos, pensou no layout completo da série. Na época do Segundo Império, a série traça as influências “ambientais” da violência, do álcool e da prostituição que se tornaram mais prevalentes durante a segunda onda da Revolução Industrial. A série examina dois ramos de uma família: os Rougons, respeitáveis ​​(isto é, legítimos) e os Macquarts, desprezíveis (ilegítimos) por cinco gerações.

A partir de 1877, com a publicação de “L’Assommoir”, Émile Zola tornou-se rico; ele foi mais bem pago do que Victor Hugo, por exemplo. Tornou-se uma figura de destaque entre a burguesia literária e organizou jantares culturais com Guy de Maupassant, Joris-Karl Huysmans e outros escritores em sua luxuosa villa em Medan, perto de Paris, depois de 1880.

 

Esta foi a primeira obra que li de Émile Zola. E digo que gostaria de ter tempo suficiente para ler mais dos livros que compõem Les Rougon-Macquart. Que livro incrível!

O livro é relativamente curto. E seu enredo nos mantém entretidos de tal forma que não dá vontade de interromper a leitura. Especialmente por causa de sua escrita limpa e direta, contando os detalhes, mas sem rebuscar demais e cansar o leitor.

Na história, Severine é casada há pouco tempo com Roubaud, um funcionário da estrada de ferro, locado em Le Havre. Em uma viagem que o casal faz a Paris, o marido acaba suspeitando e faz com que a mulher confesse que era amante do presidente da companhia, um homem idoso que seduziu a moça aos 16 anos. O marido espanca a mulher e planeja o assassinato de seu amante na viagem de trem de volta a Le Havre.

O crime foi testemunhado por Jacques Lantier, um maquinista que estava de folga e que viu o assassinato pela janela do trem quando este passou por ele. E Jacques tem um problema psicológico importante: ele não consegue se relacionar com mulheres porque ele tem um desejo imenso de matá-las, algo quase incontrolável.

O casal descobre que Jacques testemunhou o crime e Severine se aproxima dele para convencê-lo a não falar nada. Jacques se encanta por ela, especialmente por sabê-la uma assassina. Eles acabam se envolvendo e se tornam amantes. O casamento de Severine vai se esfacelando, em meio à decadência moral após o assassinato.

Mas existem outros fatores importantes, como a corrupção, os interesses políticos e econômicos de se divulgar a verdade dos fatos; e acabam encontrando um bode expiatório para culpar pelo crime. E ninguém, nem os políticos, nem a polícia, nem os envolvidos, ninguém se sente particularmente culpado de acusar uma pessoa inocente de ter cometido o assassinato.

Não se trataria mais de uma criada e um ex-presidiário, mas de um honesto trabalhador, casado com uma bonita mulher, e isto poria em julgamento toda uma faixa da burguesia, assim como o universo das estradas de ferro. […] Decididamente o caso dos Roubaud, os verdadeiros culpados, era mais sujo e arriscado. Resolveu-se então e o descartou em definitivo. Sendo preciso escolher, o mais indicado era sustentar a acusação contra o inocente Cabuche.

Ela entendeu perfeitamente: o que estava sendo dito é que não seriam presos, tinham sido agraciados. Não era apenas o emprego garantido, era o terrível drama esquecido, enterrado.

Mas não sei se é possível sair de forma totalmente incólume após se destruir a honra e a moral ao tirar a vida de outra pessoa. Acredito que alguns consigam. Mas Roubaud pagou a sua parte; ele acabou ficando viciado em jogos de cartas e deixou de lado sua esposa e sua dedicação ao trabalho.

Mas não chegava a ser um arrependimento, no máximo uma desilusão, a descoberta de que podemos fazer coisas inconfessáveis para sermos felizes, e nem por isso conseguirmos sê-lo. Ele que era tão falante caía agora em longos silêncios, em meditações profundas, das quais saía ainda mais sombrio. Diariamente, então, para evitar depois das refeições estar sozinho com a esposa, subia no telheiro, sentava-se no alto da empena e, sob os sopros de vento do largo, acalentado por vagos devaneios, fumava seu cachimbo a olhar, acima da cidade, grandes navios que se perdiam no horizonte, rumo a mares longínquos.

Severine se apaixonou por Jacques e tentou viver o amor que nunca tinha sido capaz, já que tinha sido violentada por um homem mais velho quando ainda era uma adolescente e, depois, viveu com um homem que lhe fora arranjado e que era extremamente violento na vida conjugal.

Conspurcada aos dezesseis anos pela devassidão de um velho, cujo espectro sangrento agora a perseguia, estuprada em seguida pelo apetite brutal do marido, preservara-se, mesmo assim, uma candura de criança, uma virgindade, todo aquele encantador acanhamento da paixão que se ignora. O que a interessava em Jacques era a doçura, sua obediência em não dar continuidade ao correr das mãos assim que ela simplesmente as retinha, apesar de toda sua fragilidade.

E Jacques tinha medo de sua doença, mas acaba se deixando envolver pela moça.

Mantinha-se dócil, recolhendo as mãos assim que ela as afastava, mas motivado pelo surdo medo que permanecia alojado no fundo da sua ternura, aquela grande perturbação, na qual ele temia confundir o desejo com a antiga necessidade de matar.

Tinha então conseguido? Havia possuído Séverine sem procurar o martelo para arrebentar sua cabeça. Pertencera-lhe sem luta, sem aquele impulso instintivo de jogá-la de costas, morta, como uma presa arrancada do bando. Não sentia mais a sede de se vingar de ofensas muito antigas, das quais havia perdido a exata lembrança, o rancor que, de macho em macho, se ajuntou desde a primeira traição, no fundo das cavernas. Nada disso. Aquela posse tinha um encanto arrebatador. Séverine o havia curado por ser diferente, violenta em sua fraqueza, coberta do sangue de um homem, o que formava nela uma espécie de couraça de horror. Era ela a força dominante, ousando onde ele não ousara. Foi então com terna gratidão, com um desejo de nela se fundir, que voltou a abraçá-la.

Todos aqueles acontecimentos que a haviam lançado, assustada, contra tantas abominações, tinham sido terrivelmente perversos. Até então fora enganada na vida com lama, sangue e uma tal violência que seus belos olhos azuis, ainda ingênuos, guardaram um terror que os arregalava, sob o manto trágico que os seus cabelos negros formavam. Tinha permanecido virgem, apesar de tudo, e acabava de, pela primeira vez, se entregar àquele homem adorado, querendo desaparecer nele, ser sua serva. Pertencia a ele, que dela podia dispor segundo seus caprichos.

[…] é por ter me entregado inteira a você. Não há outra forma de dizer: entreguei-me como se entrega alguma coisa nas mãos de alguém para que seja levada, para que esse alguém disponha disso a cada minuto, como de um objeto seu. Antes de você, nunca pertenci a ninguém. Sou sua e continuarei sua, mesmo que você não queira e que nem eu mesma queira… É algo que não posso explicar. Foi como nos encontramos. Com os outros, eu tinha medo, tinha nojo; mas você tornou isso uma coisa maravilhosa, verdadeira dádiva do céu… É só a você que amo e só a você posso amar!

Mas o livro não é sobre uma história de amor. O livro é sobre a decadência da sociedade e das pessoas que a constituem. A paixão que acontece entre os dois não pode durar muito, porque Severine ainda é casada; e ela acha que a solução para seus problemas é a morte do marido. Ela tenta convencer o amante de que deve executar um novo crime.

Além desse desejo de Severine, o mal de Jacques também voltava. A vontade de matar voltou a assombrá-lo e ele precisava fazer um esforço violento para se conter. Mas não era com o assassinato de Roubaud que ele sonhava; era com a morte da mulher que ele amava.

Quem mata de forma racional? Mata-se apenas por impulso do sangue e dos nervos, vestígio das antigas lutas, por necessidade de viver e pela alegria da força.

Outros eventos acontecem no livro, com um acidente de grandes proporções na estrada de ferro. Tudo acontece como em um thriller de ação, criando-se toda o cenário para que Jacques execute seu desejo. Em Jacques, vemos a luta do bem com o mal, do homem bom que se transforma no monstro incontrolável em alguns momentos e que tem a necessidade de derramar o sangue para poder se saciar.

A justiça, que grande ilusão! Não é enganar a si mesmo querer ser justo, estando o terreno da verdade sempre encoberto por tanto mato? Era melhor se manter prudente, escorar com o ombro aquela sociedade decadente, prestes a ruir.

É realmente um livro excepcional.

 

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