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Lei da Atração

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Lei da Atração
Lei da Atração

Ela sempre se achou uma mulher comum.

Fazia o que imaginava que todas as mulheres comuns faziam: atividade física 5x por semana, drenagem linfática, manicure, pedicure, depilação, tintura nos cabelos, botox, luz pulsada. Passava inúmeros cremes depois do banho ao acordar e antes de dormir. Temia cada nova ruga e cada fio branco que ficava evidente. Analisava seu rosto no espelho todos os dias. Decidia na véspera roupas e calçado. Como todas as mulheres comuns do mundo.

Sentia-se bem meditando, o que fazia todos os dias (coisa que a diferenciava um pouco de todas as mulheres comuns). E gostava de livros, cinema e de ter um tempo para conversar consigo mesma, o que era feito na solidão preenchida por suas inúmeras personalidades.

Não sentia que esses detalhes fossem suficientes para individualizá-la em meio à multidão.

Mas havia um detalhe. Daqueles que ninguém nota. Coisa em que ninguém pensa.

Quando ela saia de casa e se esquecia da sua aparência e da existência de espelhos, não sabia mais se reconhecer. Não conhecia seu sorriso sincero, daquele tipo que faz ruguinhas nos olhos, porque a face inteira sorri. Não percebia a forma como inclinava sua cabeça quando algo a surpreendia ou incomodava. Não notava as expressões faciais autênticas que eram incapazes de esconder a tristeza ou disfarçar a alegria.

Ela via os outros. Mas não percebia suas próprias qualidades, aquele brilho no olhar que abraçava as pessoas sem nem mesmo tocá-las.

Via-se sempre como uma mulher comum. Vivia sozinha, isolada no seu mundo, porque sentia-se incapaz de atrair a atenção de quem quer que fosse.

Em um daqueles dias que não tinha nada de especial, estava no trabalho (o mesmo de todos os dias) e desempenhou suas funções como sempre fazia. Nada diferenciava aquele dia de todos os outros dias. Não havia frio nem chuva. Não era 29 de fevereiro nem 13 de agosto.

Atendeu todas as pessoas com calma e gentileza, como costumava fazer.

Dois dias depois, uma daquelas pessoas que haviam passado pelo seu dia, alguém para quem ela sorrira, escreveu para ela. Um e-mail. Como tantos outros que recebia para esclarecer dúvidas. Era um homem; ele tinha viajado, estava do outro lado do Atlântico, a trabalho, sozinho; precisava de algumas orientações.

Ela respondeu, como sempre, na sua forma clara e bem humorada. Mas a resposta apenas aguçou mais a curiosidade daquele homem. Algo naquelas poucas frases daquele e-mail sucinto, mostrou algo mais dela, algo que combinava com aquele sorriso. A mesma pureza.

Ele insistiu. Escreveu. Mais e mais. Vários por dia. De tal forma que parecia que ela estava lá, com ele, do outro lado do Atlântico.

Quando ele voltou, quis vê-la. Fora do trabalho.

Era a mesma pessoa, mesmo rosto e mesmo corpo. Mas havia algo mais. Um encanto despertado por aqueles escritos. Ele percebeu que a amava. Não pela atividade física, drenagem linfática e exaustivas atividades rotineiras. Mas por algo que vinha de dentro, sincero, puro, transparente e que se expressava pelas palavras, pelo sorriso e pelos olhos de céu azul.

– Sílvia Souza

(23/07/2015)

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