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Laços de Família #12: “O crime do professor de matemática”

Laços de Família #12: “O crime do professor de matemática”
Laços de Família #12: “O crime do professor de matemática”

Este conto faz parte do livro “Laços de Família” de Clarice Lispector e foi reunido no livro “Todos os Contos”, organizado por Benjamin Moser. A Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou para comentar com ela cada um dos contos escritos por essa escritora maravilhosa. A publicação da Marcia pode ser acessada clicando aqui.

Este é mais um conto de extrema sensibilidade. Não é a primeira vez que o leio; acho que tive a possibilidade de lê-lo em alguma outra coletânea de contos da Clarice Lispector.

Um homem sobe a uma colina carregando um saco pesado. Ao chegar lá, retira de dentro um cachorro morto e pretende enterrá-lo embaixo da árvore que ocupa aquele ponto elevado. O cachorro que ele iria enterrar era um animal desconhecido, mas que ocupava o lugar de um cão que ele já tivera e que não estava mais consigo.

Mas se fosse o outro, o verdadeiro cão, enterrá-lo-ia na verdade onde ele próprio gostaria de ser sepultado se estivesse morto: no centro mesmo da chapada, a encarar de olhos vazios o sol. Então, já que o cão desconhecido substituía o “outro”, quis que ele, para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia.

Ele enterrou o cachorro desconhecido, que ele encontrara morto em uma esquina, sem nada saber sobre sua história ou seu abandono. Ele tentava, com isso, se redimir de seu pecado, cometido com o outro cão, que tinha sido seu verdadeiro cão.

Deu um suspiro fundo, e um sorriso inocente de libertação. Sim, fizera tudo. Seu crime fora punido e ele estava livre.

E agora ele podia pensar livremente no verdadeiro cão. Pôs-se então imediatamente a pensar no verdadeiro cão, o que ele evitara até agora. O verdadeiro cão que agora mesmo devia vagar perplexo pelas ruas do outro município, farejando aquela cidade onde ele não tinha mais dono.

Ele vivia na culpa de ter abandonado seu verdadeiro cão, aquele que ele amava e que o amava. E agora podia reavivar suas memórias.

“Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu – como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que eu te amei”, refletiu curioso.

Ele teve o cão desde que este era pequeno. Tinham uma compreensão completa um do outro. Mas decidiu abandonar o cachorro quando precisou se mudar com sua família para uma nova cidade, para trabalhar em uma nova escola.

“(…) Abandonou-te com uma desculpa que todos em casa aprovaram: porque como poderia eu fazer uma viagem de mudança com bagagem e família, e ainda mais um cão, com a adaptação ao novo colégio e à nova cidade, e ainda mais um cão? ‘Que não cabe em parte alguma’, disse Marta prática. ‘Que incomodará os passageiros’, explicou minha sogra sem saber que previamente me justificava, e as crianças choraram, e eu não olhava nem para elas nem para ti, José. (…)”

Após enterrar aquele cão desconhecido e conseguir pensar com liberdade no seu verdadeiro cão que fora abandonado, entendeu o motivo de ter cometido aquele crime. Escolheu aquele crime que julgara menor para e evitar que cometesse algum grande crime em sua vida, como se tivesse que escolher um crime para cometer.

“Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão”, pensou o homem. “Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.”

Esse é sempre um assunto que me vem à mente. Fico pensando se os piores crimes são aqueles puníveis por lei. Ou se são tão graves quanto aqueles pequenos pecados que julgamos bobos ou pouco importantes, como abandonar alguém, ou causar uma mágoa, enganar, contar uma pequena mentira, não cumprir algo que tinha sido prometido. São aquelas dores eternas que ficarão para sempre em quem sofreu, que mudará sua vida e sua capacidade de acreditar nas pessoas, e que, ao pecador, ficará eternamente voltando à lembrança, como um sonho incômodo, e esse pecador ficará sempre buscando justificativas e alívios ao se afirmar que aquele não é crime punível por lei. Por que fazemos aos outros aquilo que não desejaríamos que fosse feito conosco?

Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições.

São crimes dos quais os próprios pecadores são incapazes de se perdoarem. Crimes que vão doer até o dia em que a morte chegar e aplacar todos os sofrimentos.

 

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2 Comments
  • Carlos disse:

    Olá Sílvia é uma grande reflexão. Eu acho que o mau remove a consciência daqueles que praticam, e o karma e garante que ninguém que tenha sido cruel fique impune. Os Contos de Clarice sempre deixam uma janela aberta em nossas mentes. Um abraço.

    • Silvia Souza disse:

      Você tem razão, Carlos…
      Os escritos de Clarice trazem muita reflexão sobre nossa vida e nossas ações.
      É isso o que eu mais busco quando leio, porque é a minha forma de me tornar uma pessoa melhor.
      Um beijo grande e um lindo domingo!

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