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Insônia

Insônia
Insônia

Ele se sentou na cama. Eram duas horas, madrugada. Acordou e não conseguia mais dormir. As preocupações afugentavam o sono e ele resolveu levantar. Mas permanecia ali, sentado na cama.

Não havia nada objetivo, nenhum problema concreto que pudesse ser solucionado. E essa era a maior dificuldade. Porque ele era bom para lidar com as adversidades. Sempre era consultado no trabalho para ajudar a encontrar soluções nas situações mais variadas. Se fosse algo assim, não teria perdido o sono. Ou se fosse esse o motivo da insônia, saberia como resolver.

Mas não era a primeira noite em que isso acontecia e sabia que não seria a última também.

Olhava para a mulher ao seu lado e não sentia nada. Nem desejo, nem amor, nem mesmo carinho. Era um vazio de sentimentos. E mesmo assim, ela estava ali, ao seu lado na cama. Estavam juntos há meses. Não sabia ao certo quanto tempo. Ele não quis contar.

Naquele momento de sua vida, parecia a pessoa certa. Era pouco mais nova, estabelecida profissionalmente, sem filhos. Era bonita. Uma pessoa agradável. Alguns gostos comuns. Ele poderia até fazer planos de se casar e ter filhos, coisa que não tinha acontecido até aquela fase de sua vida. Estava perto de completar os 40 anos. Era o momento, não era? A maioria dos amigos estava casada; alguns tinham filhos. Era o que todos faziam, não era?

E quanto mais ele olhava para a mulher ao seu lado na cama, dormindo profundamente, não conseguia imaginar sua vida com ela. Mas tinha que ser ela. Estava cansado de procurar e sabia que não iria encontrar. A mulher perfeita já tinha passado por sua vida. E ela escapou entre seus dedos como a água da chuva. Ele segurou o quanto pode. E ainda assim, ela saía pelas pequenas frestas que ele não soube vedar.

Ele tinha a sensação de que ela tinha levado seu coração com ela. Não haveria outra. Ele procurou. Exaustivamente. Uma tinha a pele tão macia quanto, mas não tinha o mesmo sorriso. Outra tinha o perfume tão bom quanto, mas não tinha a mesma voz. E assim se passou com cada uma das mulheres que ele conheceu. Todas tinham suas qualidades, mas nenhuma reunia tantas qualidades quanto ela. E o tempo foi passando.

Quantas vezes ele desejou ter ido atrás dela. Chegava a ligar. Dar um “OI”, perguntar se estava tudo bem. E, muito embora ela fosse a mulher perfeita e que tinha sequestrado seu coração, havia tantas dificuldades. Não por ela. Mas pelo mundo real. Ela era a mulher perfeita em uma situação imperfeita. E ele não tinha coragem de mudar a situação, de enfrentar o mundo e sua família.

Foi por isso que ele escolheu a situação perfeita e abriu mão da idealização da mulher. Porque sabia que não haveria outra.

Ele continuava olhando para a mulher ao seu lado na cama. Ela continuava dormindo profundamente.

Ele se levantou, bebeu um copo de água na cozinha, olhou o celular à procura de uma mensagem inexistente, deitou-se novamente. E o sono veio. O sono cansado de quem se conforma com a condição presente e abre mão de resgatar o próprio coração.

– Sílvia Souza

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1 Comment
  • vileite disse:

    Bom dia !A sua descrição sobre insônia é concreta e real pois, quantas vezes perdemos o sono , sem aparente motivo de preocupação e só conseguimos adormecer ao raiar do dia . Por que isso ?
    Acho que são “Choses de la vie ” .Eu que o diga !…

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