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Inquietude

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Esse espaço funciona para mim como um exercício diário de escrita. Procuro dedicar-me a ele um pouquinho por dia, praticando a organização das palavras ao materializar meus pensamentos e ideias. Essas não faltam. Há infinitas. Falta-me tempo para escrever tudo o que gostaria.

Mas existem momentos em que não consigo organizar esses pensamentos. Eles correm desordenados e indócis. Estou em um desses momentos. Faltam-me concentração e foco. Estou dispersa. Praticamente não consegui escrever nessa semana que passou.

Perdi ainda mais a vontade de fazer coisas que me davam prazer. Encontro cada vez menos o sentido dessa vida sofrida e angustiante. Não quero sair da cama quando a manhã chega. Espero pelo sono eterno, mas ele acontece para a pessoa que tem tanto desejo de vida e tantos planos de futuro.

Canso-me do autocentrismo das pessoas, seu egoísmo inconsciente, e apercebo-me de que eu talvez seja assim também. Não consigo olhar para mim mesma e fazer uma análise neutra. Há momentos em que sou excessivamente crítica e, em outros, olho para meu eu repleta de autopiedade.

Não consigo sair de casa e encontrar pessoas. Visto-me, perfumo-me, dirijo até aonde deveria ir, mas desisto; encontro sempre uma justificativa para não descer do carro, para não enfrentar as situações que me angustiam.

Evito mensagens, contatos imediatos, respostas rápidas. É como se eu precisasse do meu tempo para refletir, responder, assimilar, digerir. Até acho que as ações urgentes conseguem tirar de mim uma boa velocidade de pensamento, atitudes eficientes e acima da média. Mas elas me esgotam; após o evento agudo e emergencial, minhas energias findam e preciso de dias para me recuperar.

Depois surgem as reflexões, as dúvidas sobre as atitudes a tomar, as mudanças necessárias dos rumos daqui para a frente. Sei que irão acontecer, porque não sou de fugir em momentos de transformação. Enfrento com coragem. Mas não posso dizer que seja fácil; algumas cicatrizes permanecerão.

Tenho o dom de afastar as pessoas de mim. Não é proposital. Talvez seja minha necessidade de mostrar minha autossuficiência e capacidade de enfrentamento. Sonho com as pessoas. Elas me vêm ao pensamento várias vezes ao dia. Gostaria de saber delas, ter notícias. E receio escrever e que perguntem de mim e eu sinta obrigação de falar sobre as coisas que não quero verbalizar. Porque não sei mentir; se me perguntam, sei que irei dizer e contar, mesmo que seja algo alheio à minha vontade. Haverá uma forma de mudar?

Penso em como tocamos a vida de outras pessoas e como essas tocam nossas vidas. Influenciamos uns aos outros de forma profunda e irreversível, com cada uma de nossas ações e de nossas palavras. Será que eu tenho a consciência real do quanto causo de bom e de mau para as pessoas que interagem comigo?

Sinto falta de muitas pessoas. Algumas que partiram para sempre; outras que partiram da minha vida. Sobre as primeiras, que não deixaram mais do que lembranças, fica uma saudade profunda e as recordações dos bons momentos. E as pessoas que vivem, mas não estão mais na minha vida? Vejo notícias e penso nelas; nesses momentos ainda percebo alguma crença em algo superior, porque rezo para que esteja tudo bem. Sonho em rever essas pessoas enquanto houver vida no meu corpo.

A questão é que não sei quando meu corpo vai cair inerte. Ninguém sabe. Não importa desejar viver ou morrer. Não tenho a decisão sobre o momento da minha morte, a menos que eu escolha tirar minha própria vida. Então, mesmo que eu deseje muito reencontrar algumas pessoas nessa minha única existência, pode ser que não haja tempo.

Mas se for eu a partir, já não restará nem mesmo a saudade. E eu não saberei. Simplesmente será o fim.

– Sílvia Souza

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