Now reading

Infidelidade 2

Vazio
Next post
Infidelidade 2
Infidelidade 2

Ela não sabia dizer se a maternidade tinha acontecido em virtude de um sonho pessoal ou da pressão do marido e da família. Essa é uma escolha complicada e que não tem a vida toda para acontecer. Algum momento poderia ser tarde demais.

Veio o primeiro. Esse evento balançou todos os seus alicerces. E todos os papeis que desempenhava passaram para o segundo plano. Não tinha mais vaidade. Quase não existia como pessoa, profissional, mulher, amante. Deixou de lado os exercícios, a dieta, os perfumes e cremes. Só via uma coisa na sua vida: o filho.

O marido procurava entender. Percebia como algo que seria passageiro. Ele trabalhava muito e tentava garantir que nada faltasse dentro de casa e no futuro daquela pequena pessoa que ocupava a vida da esposa.

Ela ainda não tinha recuperado sua vida de volta, quando o segundo chegou.

Alguns momentos de lucidez surgiam de vez em quando. Nesses momentos ela olhava para si, para o casamento. Tentava respirar e dar voz à mulher que estava calada. Mas esses momentos eram muito fugazes. Logo voltavam as obrigações, os cuidados de mãe zelosa.

O marido percorria um caminho dourado dentro da profissão. Cada vez mais reconhecido. Ganhava mais. Trabalhava mais. Menos tempo em casa. Quase não via os filhos. Não tinha tempo para eles. Mas sabia que eles estavam sendo bem cuidados; afinal, não tinha mais uma esposa, mas sim uma mãe. E assim passou a chamá-la.

Ela se sentia cada vez mais asfixiada por esse papel. Não tinha ajuda. Parecia ter nascido para ele. Mas sentia outras vozes tentando gritar dentro dela, querendo pedir auxílio, se libertar daquela prisão. Ela as calava mantendo o vácuo interior. Nenhum som indesejável era propagado.

O marido viajava cada vez mais. Muitos convites. Palestras. Sua consultoria ganhava valor crescente dentro o fora do país.

Ele precisava se vestir bem: ternos, gravatas, sapatos… tudo comprado das melhores grifes. Perfumava-se todos os dias antes de sair para o trabalho, coisa que nunca tinha feito. Passou a fazer dieta. Frequentava a academia. Emagreceu. Deixou crescer a barba, uma barba elegante e bem cuidada.

Vivia um momento maravilhoso profissionalmente. E, quando chegava em casa, todos os assuntos giravam em torno dos filhos. Ele não conseguia partilhar suas conquistas. Não sentia mais a ressonância na esposa. Ela era inteligente e sempre tinha sido sua parceira, seu estímulo, aquela que o fazia querer melhorar. E, de repente, ela não estava mais lá. Ele se sentia isolado, solitário. Sua mulher não era a mesma. E o que imaginava passageiro já durava tempo demais.

O envolvimento foi inevitável. Alguém do seu círculo. Alguém que estava sempre presente, que participava de todas as suas conquistas. Alguém que até mesmo conhecia sua esposa. Nunca tinha sido seu desejo. Aconteceu sem controle, sem consciência dos riscos. Apenas aconteceu. Companhia nas viagens. Encontros fortuitos em quartos de hotel.

Quando voltava para casa, olhava para a mulher com raiva. Raiva por ela ter se enterrado naquele papel de mãe. Raiva pela passividade, falta de vaidade. Raiva por ela não se interessar por ele. Raiva por ela nem mesmo suspeitar que pudesse haver outra mulher. Raiva por ela não sair da inércia e brigar pelo homem, marido, pai dos seus filhos.

Ele não falava mais com ela. Não a tocava mais. Não havia diálogos além das decisões práticas do dia a dia.

Ele queria liberdade. Viver sua vida. Abrir suas asas sem amarras.

Ela queria gritar. Queria romper aquela carapaça grossa que mantinha prisioneiros todos os seus outros papeis femininos. Correr sem freios.

Ela via tudo aquilo. Toda a mudança. Sentia-se sozinha. Mas acreditava na individualidade, no espaço de cada um. Ela não queria saber detalhes. Não queria perguntar. E sabia (ou, ao menos, acreditava) que aquilo tudo iria passar.

Algum dia ela iria acordar daquele pesadelo.

– Sílvia Souza

(22-08-2015)

Os outros 3 contos escritos sobre Infidelidade, podem ser acessados pelos links abaixo:

Infelizmente, haveria inúmeras outras histórias a serem contadas, que poderiam servir como uma forma de refletir sobre os relacionamentos, sobre nossos medos, nossas verdades e o comportamento da sociedade.

Mas parei de escrever, porque sei que o tema não desce bem. A maioria das pessoas têm posições muito rígidas. Eu também tive. Mas precisei mudar, quando percebi que o mundo não era um conto de fadas.

Mas estou sempre aberta a discussões, debates, reflexões…

Um ótimo dia a todos!

– Sílvia Souza

(03-02-2016)

Written by

14 Comments
  • M.Raydo disse:

    Este tema é mesmo complicado! Nunca tinha visto assim.
    Me sinto carregando uma montanha nas costas e sem ar!
    Me coloco no lugar dos personagens e os vejo assim: encurralados!
    A tristeza gira em torno de todos os envolvidos.
    Neste caso, nem é extamente a infidelidade que me incomoda, mas a vida que travou!
    O não poder amar, se cuidar… curtir! O peso e aresponsabilidade de ser pai!
    O texto está muito legal e verdadeiro, não me entenda mal! É a falta de reação, da virada… acho que aquela coisa dos contos de fadas, sabe como é? Onde, mesmo tudo estando horrível, de repente rola uma virada! Uma solução mágica!
    Está excelente, bem escrita e profunda a história!
    Lembra aquele grito na garganta que não saiu no outro texto? Pois é… ainda está aqui!
    Parabéns pelo texto! 🙂

    • Sílvia Souza disse:

      Você queria que eu inventasse um final feliz?
      Eu não acredito em finais felizes. Pode até haver perdão, superação dos problemas, das dificuldades, reconstrução da relação… um recomeço.
      Mas as mágoas são profundas. As cicatrizes eternas. Daquele tipo que volta a doer quando muda o tempo.
      Mas posso tentar construir finais fazendo de conta que ficou tudo bem, com uma ajuda da Fada Madrinha e de todas as fadas boas do bosque!
      😊😉

      • M.Raydo disse:

        Na real, acho que sempre tem um final feliz! Nem que não acabe no capítulo alegre! A maior alegria aí são os filhos! E o marido que consegue dar suas escapadas com a a”amiga” e o trabalho! Só fiquei tentando achar a graça da mãe… ainda nnao achei! Mas, me dê um tempo, eu chego lá! :p

  • talison disse:

    😱😱😱😱😱

  • talison disse:

    Muito bom!!! Eles poderiam conversar, resolver isso na base do diálogo… como nós aprendamos naquele outro comentário! Mas você vai continuar essa história? Fiquei curioso… 😁

  • talison disse:

    hahahah, que situação! Bom, continua sim! E você poderia fazer dois finais e agradar a todos, que tal? kkkk
    Mas conte-nos a verdade sobre essa história! Vou ficar no aguardo! 😌

  • Silvia

    Vc tem que escrever algo e publicar (comece pela Amazon quem sabe), tenho certeza que muitas pessoas irão se identificar com suas histórias.

    Hug

  • Falei muito sério sobre vc publicar.
    Seus textos tem qualidade e uma escrita que meche com quem lê, agora realmente quem escreve está sujeito a todo tipo de opinião, inclusive as desagradáveis.
    Pense nesta possibilidade de publicar e ganhar mais leitores 😘

    Hug

Instagram
  • #JamesJoyce #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #gastonbachelard #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #victorhugo #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #claudeaveline #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #thomasatkinson #citações #reflexõesdesilviasouza