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Ikigai

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Tenho a impressão de que há pequenos pedaços meus espalhados por vários lugares diferentes. Meu corpo vive em São Paulo, onde tenho as coisas mais importantes da minha vida: meus filhos. São Paulo acolhe a Sílvia mãe, profissional e mulher batalhadora. Em São Paulo, preciso usar meus escudos, minhas armas e estar sempre pronta para a batalha.

Minha alma de infância, minhas lembranças mais queridas estão no interior, na região de Presidente Prudente, onde vive minha família. Lá, eu me sinto acolhida, amada e posso deixar exposto meu lado mais frágil, porque sei que não serei magoada.

Há pequenas partes espalhadas por outros lugares, onde tenho amigos ou locais que tiveram grande significado na minha vida: Praga, Salvador, Nova York, Toronto, Califórnia, Londres, Madri, Cancun, Chicago, Viena, Amsterdã.

Tenho um pedaço enorme do meu coração em Portugal, país que acho lindo e onde me sinto bem. Grande parte da minha genética é portuguesa e creio que devo reconhecer Portugal como meu lar por causa dos meus antepassados.

Mas acho que minha alma ficou aprisionada de verdade e para todo o sempre em Paris.

Faz pouco mais de um ano que eu voltei da minha última viagem a Paris. A grande questão é que não sou apenas apaixonada pela beleza de Paris. Não. Amo Paris em cada detalhe, cada coisa boa ou ruim; amo a atmosfera, seu clima (não importando a estação do ano), seu perfume… tudo!

Paris guarda uma fase importante da minha vida, todos os meus confrontos interiores, as vezes em que enfrentei meus fantasmas, momentos em que me isolei, em que me descobri, em que tive que olhar para mim mesma desconectada dos olhares e das opiniões das outras pessoas. Por que tudo isso aconteceu em Paris? Não sei. De repente poderia ter sido em Campos do Jordão ou no Guarujá. Mas não foi. Acho que apenas lá eu tive a chance de me isolar do mundo e explorar as coisas por mim mesma, descobrindo meus gostos, meus desejos, meus prazeres e meus medos.

Quando vou a Paris, consigo impor à vida o ritmo que eu gostaria de seguir sempre: tudo feito com calma… e ter tempo para apreciar as belezas, sentir o vento acariciando o rosto, olhar para o céu, apreciar os jardins, sentar para almoçar sem ter que me preocupar com o fato de haver pessoas esperando ou não. Meu relógio segue outro ritmo.

Eu não sei quando conseguirei voltar a Paris novamente. Talvez em 2 meses. Talvez nunca mais na minha vida. Mas tenho que confessar que, quando Paris aparece entre minhas possibilidades futuras, a vida me parece mais divertida, mais colorida e consigo perceber uma razão para enfrentar cada desafio do meu dia. Eu deveria ter sempre uma viagem programada para Paris; nem que fosse nos meus sonhos. Voltar para Paris é meu IKIGAI.

Ikigai (生き甲斐) é um conceito japonês cujo significado é “uma razão para existir”. Todas as pessoas, de acordo com os japoneses, possuem um ikigai. Encontrá-lo requer um olhar profundo para si mesmo. Essa busca é muito importante, porque se acredita que a sua descoberta traz satisfação e sentido à vida.

Pode parecer muito fútil eu colocar o objetivo de voltar a Paris como algo tão significativo na minha vida. E eu já tive outros objetivos em momentos diferentes. Muitos deles já foram realizados. Precisei buscar outros para desejar continuar vivendo. Meus filhos, meus pais e minhas irmãs são essenciais na minha vida, mas não posso basear o sentido de viver em nenhum deles; seria um encargo muito grande. Imaginei que escrever teria esse sentido; mas percebo de forma cada vez mais real que eu não tenho o dom da escrita que eu gostaria de ter. E percebo que nada me motiva mais do que planejar uma viagem para Paris. Talvez seja o local onde eu reúna corpo e alma e seja uma pessoa inteira e completa.

Os meus 10 locais preferidos em Paris:

  1. Notre-Dame de Paris
  2. Sainte-Chapelle
  3. Musée D’Orsay
  4. Musée de l’Orangerie
  5. Musée Rodin
  6. Avenue de Champs Elysée
  7. Jardin du Luxembourg
  8. Musée du Louvre
  9. Place des Vosges
  10. Andar muito pela cidade… sem pausa… caminhar por todos os lugares… explorar cada cantinho…

 

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4 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Talvez durante a sua próxima visita a Paris quando você encontra a principal razão para escrever seu romance. Um abraço.

    • Carlos,
      Vou confessar que Paris já foi minha inspiração… tenho uma história escrita. Mas é péssima! E se eu quiser publicá-la, terei que reescrever… e talvez reescrever…
      Infelizmente, falta-me tempo…
      Adoraria conseguir tirar umas férias e poder me dedicar exclusivamente à escrita… Mas você há de convir que não é algo fácil para uma mãe e profissional e divorciada…

      • Carlos Moya disse:

        Eu acho que para você escrever que exige um esforço especial. Para mim que só eu exercício do dono de casa e jardineiro, avaliação rouba um tempo eu quase não tenho. Eu acho que mesmo se não refinado, o importante é que você encontra agusto refletindo seus pensamentos. Assim, permanece sempre algo de nós mesmos e nossa própria história. Um abraço.
        Gostaria de ler ese relato.

        • Espero conseguir trabalhar nesse escrito e, um dia, quem sabe, conseguir divulgá-lo…
          Acho inevitável colocar muito de nós mesmos e de nossa história em nossos escritos…
          Há alguns anos, li um livro de Mario Vargas Llosa, “Cartas a um jovem escritor”, em que ele fala sobre o processo de escrita. E ele diz que ao autor faz um streap-tease ao contrário… ele inicia ele mesmo, despido de tudo, e vai se vestindo conforme vai construindo a história; mas o autor continua ali, no centro de tudo. Achei perfeito!

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