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Histórias de Família: Colégio dos Anjos

Histórias de Família: Colégio dos Anjos
Histórias de Família: Colégio dos Anjos

A doutrina que mantém que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser e de pôr em prática o que pensa como quiser desde que essa expressão ou essa prática não infrinja diretamente a igualdade de qualquer outro indivíduo.

(Fernando PESSOA sobre o Liberalismo)

A partir do final do Século XIX, o mundo começou a mudar de forma mais importante com a Revolução Industrial. A Igreja Católica perdeu um pouco seu poder devido ao avanço da ciência. Na Europa, as mulheres passaram a ter mais direitos e um pouco mais de liberdade. Com as guerras, elas precisaram suprir a carência de mão de obra masculina. Mas este movimento não chegou à América ao mesmo tempo.

A mulher era vista como um ser ignorante que não necessitava mais do que uma educação voltada para o polimento social. Foi no início do período republicano no Brasil que se fundou o maior número de escolas e as idéias sobre a educação feminina começaram a ganhar importância. Mas, as mulheres geralmente não frequentavam a escola neste período; a educação era normalmente feita em casa, com a ajuda de professores particulares contratados pelas famílias e o foco era apenas a alfabetização. A menina deveria adquirir conhecimento, mas, ainda, deveria ser algo que a tornasse mais “polida”, pois a finalidade dessa escolarização era que ela soubesse educar bem seus filhos para a pátria.

Neste período, a Igreja Católica identificou uma possibilidade de aumentar novamente sua influência, fazendo frente aos governos laicos que cresciam nos países. Começaram a surgir, inicialmente na Itália e depois em outros países, escolas católicas para moças, em regime de internato. A educação de meninas e jovens fazia parte dos conceitos elaborados pela Igreja, pois as alunas poderiam ser, posteriormente, educadoras dos filhos e da sociedade, conforme os princípios do catolicismo. Essa educação ocorreria nas escolas implantadas pelas diversas congregações que aqui chegaram. Entre 1872 e 1920, 58 congregações européias estabeleceram-se em terras brasileiras; outras 19 também foram fundadas no Brasil por essa época.

Foi, então, no ano de 1912 que o Colégio dos Anjos foi fundado em Botucatu pela Congregação das Irmãs Marcelinas. Até a data da fundação do Colégio dos Anjos havia somente quatro escolas católicas na região: em Araras, Campinas, São Carlos e Sorocaba. Já nos dez anos seguintes (1912-1922), o número de fundações de colégios, escolas ou obras sociais católicas praticamente dobrou e esse crescimento continuou acentuando-se nos dez anos seguintes, chegando a 12 fundações. Para manter o seu instituto dentro das exigências legais dos tempos e para favorecer a preparação intelectual das irmãs, decidiu-se que algumas irmãs fizessem os exames de licenciatura.

O Colégio dos Anjos foi fundado para suprir a necessidade de implantação de uma escola feminina para a elite. O objetivo era educar as moças para conviver em sociedade e prontas para cuidar do lar, dos filhos e do marido; a preocupação existente era educá-la para torná-la mais apta a exercer sua função essencial, a carreira doméstica, e não para que ela exercesse uma profissão.

 

Colégio dos Anjos quase pronto

 

Certamente a construção de um modelo de mulher simbolizado pela mãe devotada implicou sua completa desvalorização profissional, política e intelectual. Esta desvalorização é imensa porque parte do pressuposto de que a mulher em si não é nada, de que deve esquecer-se deliberadamente de si mesma, e de que deve realizar-se através dos êxitos dos filhos e do marido.

Para ambos os sexos, os primeiros ensinamentos consistiam em aprender a ler, escrever e contar, saber as quatro operações e as noções da doutrina cristã, mas a partir daí começavam as distinções: para os meninos a geometria e para as meninas noções de bordado e costura. A ênfase na educação feminina deveria recair sobre a formação moral, a constituição do caráter, considerando suficientes, provavelmente, doses pequenas de instrução; a mulher precisava ser, segundo a mentalidade da época, em primeiro lugar, a mãe virtuosa, o pilar de sustentação do lar, pois era ela a responsável pela educação das gerações futuras.

O Colégio das Marcelinas foi o primeiro da cidade de Botucatu com internato para meninas e jovens. A região de Botucatu era muito rica pelas enormes plantações de café. Nessa pequena cidade de aproximadamente 30.000 habitantes, sendo que 10.000 eram italianos, havia água, luz e algumas escolas do governo. No comércio, já se podia encontrar o necessário para uma vida normal e confortável. O surgimento do Santa Marcelina em Botucatu, conhecido no início do século como Colégio dos Anjos, significou para a cidade uma revolução em matéria de ensino.

O Colégio foi inovador no ensino, integrando a formação científica, de humanidades e comportamental. Além das disciplinas básicas estavam incluídos nos programas estudos de língua portuguesa e sua literatura, francês, italiano, inglês, aritmética, geometria, geografia, história, ciências naturais, física e química, economia, ginástica, desenho, canto e história da arte.

Nos anos que se seguiram, apesar das dificuldades advindas com o início da Primeira Guerra Mundial na Europa, o Colégio dos Anjos viveu um período de crescimento.

Minha avó paterna, descendente de portugueses prósperos, foi enviada ao Colégio Santa Marcelina. Nascida em 1920, aos 9 anos, mudou-se de Santo Anastácio para Botucatu, onde tinha familiares também. Saiu do Colégio aos 18 anos para se casar. No Colégio, teve uma formação formal completa, além de ter grande formação em artes e atividades manuais: pintura em tela e tecido, música (tocava piano), crochê, tricô, costura e culinária.

 

Colégio Santa Marcelina
Colégio Santa Marcelina

 

Eu convivi muito pouco com minha avó, porque ela morreu antes que eu completasse 4 anos. Lembro-me um pouco dela, mas quase tudo o que sei vem das histórias que escutei ao longo da minha vida.

Ela era muito culta. Gostava muito de ler, além de gostar de cinema e teatro. Chegou a visitar Portugal com seus pais ainda adolescente; a viagem durou 6 meses. Casou-se aos 18 anos e, aos 19, já teve seu primeiro filho de um total de 6. Foram 5 meninos e 1 menina. Viveu em função dos filhos, dos pais e do marido. Ficou viúva aos 46 anos e morreu aos 55 anos. Já era viúva quando resolveu aprender a dirigir.

 

Colégio Santa Marcelina
Colégio Santa Marcelina

 

Aos domingos, cozinhava o frango ensopado logo cedo, para que estivesse pronto quando meu pai me levava para vê-la antes do almoço. Mas a principal memória que tenho de sua casa é dos biscoitos de polvilho que nunca faltavam.

Fiz questão de ir ao seu velório para dar um último beijo de adeus. Lembro-me dela com seu vestido azul; ao menos, na minha memória eu a vejo assim.

Eu gostaria de ter convivido mais com a minha avó. Gostaria de ter conversado, perguntado sobre suas experiências, sobre seus sonhos… Fico me perguntando se ela era feliz nessa vida totalmente dedicada à família ou se ela queria ter feito algo diferente. Ela não era madame nem tinha uma vida ociosa. Mas será que as atividades que exercia lhe bastavam? Sei que ela teve um casamento feliz, mas ela nunca pôde atender aos seus próprios anseios. Muitas vezes me pergunto se eu saberia lidar melhor com as minhas angústias caso tivesse tido a chance de conversar com ela.

Às vezes, queria ter a capacidade de guardar as lembranças em rolos de filmes para poder assisti-las depois e eternizar cada momento único da minha vida.

 – Sílvia Souza

(Fonte das informações:  “A história das irmãs marcelinas: Fundação do Colégio dos Anjos em Botucatu (1912)” de Neise Marino Cardoso)

 

 

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