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História da Perfumaria

História da Perfumaria
História da Perfumaria

Há dias em que escrevo meus sentimentos mais profundos, geralmente meio melancólicos e carregados de desesperança. Mas não sou sempre assim. Tenho algumas paixões que me empolgam, em especial se eu encontrar ressonância. Excluindo meus filhos e minha família, minhas maiores fontes de entusiasmo são: tudo o que se refere a Portugal e França (os dois países onde deixei parte do meu coração), livros (em cujos mundos eu gostaria de viver) e, por último, o item mais fútil: perfumes.

Infelizmente, não sei tanto sobre perfumes quanto eu gostaria. Tento ler, aprender, experimentar. Mas é um mundo extremamente amplo. Pensei em, de vez em quando, escrever sobre perfumes; meu intuito não é ensinar nada para ninguém, porque não tenho conhecimento para isso. Eu pretendo escrever para que eu mesma aprenda. E, quem sabe, encontro ressonância em alguém que me leia e se interesse também e possa me ensinar mais ou queira trocar experiências.

Vou começar do início: a história do perfume.

1. Antiguidade

Nas civilizações antigas, as principais matérias brutas dos perfumes (flores, plantas aromáticas e resinas) eram reservadas ao culto dos deuses. Egípcios e gregos queimavam as essências aromáticas em homenagem às divindades, porque o perfume exaltava a beleza e a força. A palavra perfume é derivada do latim “per fumum” (através da fumaça).

Nesse contexto de religiosidade, o uso de substâncias odoríferas se intensifica: incensos, óleos, bálsamos. Progressivamente, o perfume foi se associando à beleza feminina, por causa da rainha Cleópatra que o utilizava na forma de pomadas ou em banhos perfumados.

 

2. Idade Média

Com o advento das invasões bárbaras que levaram à queda do Império Romano, na Idade Média, ocorre uma redução no uso de produtos perfumados, limitados à utilização de plantas aromáticas cultivadas em jardins fechados, como feito por Charlemagne em seus palácios.

A partir do Século XII, a reabertura das rotas comerciais romanas e a intensificação do comércio com o Oriente permitem uma redescoberta de inúmeras fragrâncias. Seguindo os chineses e os árabes, os alquimistas europeus descobrem o álcool etílico e a destilação. Com as viagens de Marco Polo, o comércio de especiarias aumenta e acelera o processo de redescoberta.

 

3. Renascimento

No Renascimento, a sociedade recorre cada vez mais ao perfume como uma forma de esconder os odores corporais desagradáveis. Usavam-se perfumes fortes e marcantes, com duração suficiente para cumprir sua missão de dissimulação: âmbar, musc, jasmim, tuberosa. As rainhas e cortesãs disputavam as fórmulas dos primeiros perfumistas italianos; além disso, os grandes navegadores levavam novas matérias primas da América e da Índia: cacau, baunilha, tabaco, pimenta, cravo, cardamomo.

Vindos da Espanha e da Itália, perfumistas estrangeiros instalam-se em Paris e as luvas perfumadas invadem a França.

 

4. Período Clássico

A associação entre o couro e o perfume é tão próxima que, em 1656, ocorre a criação da companhia das luvas perfumadas na França. Sob o reinado de Luís XIV, essa companhia obtém o monopólio de distribuição de perfumes, antes feito pelos boticários e farmacêuticos. A corte de Versailles passa a usar de forma disseminada os perfumes e cosméticos; e o Rei Sol (Luís XIV) mandava perfumar as fontes dos jardins de Versailles projetados por Le Nôtre: flor de laranjeira, jasmim e cravo branco.

A grande demanda de produtos perfumados leva a França a desenvolver sua própria produção: a região de Grasse, possuindo um clima particularmente favorável, passa a se projetar como produtora de matérias primas para os perfumes e, posteriormente, na própria produção dos perfumes.

Rose de Grasse
Rose de Grasse

 

5. Século XVIII

O Século XVIII foi fundamental para o desenvolvimento da perfumaria. Nesse período, ocorreu a passagem de perfumes muito fortes para as fragrâncias mais delicadas. A França, onde a corte de Versailles é reconhecida como modelo de refinamento pelas outras cortes europeias, é a pátria dos maiores perfumistas e das criações mais inovadoras. A corte de Luís XV é batizada de “a corte perfumada” e recomenda-se o uso de um perfume diferente por dia.

 

6. Século XIX

Em razão de sua associação com a corte, os perfumes caem em desgraça durante a Revolução, antes de voltar à moda com o Império: Joséphine gostava dos aromas exóticos e Napoleão abusava da água de Cologne.

No Século XIX, a perfumaria sofre uma revolução, nos mesmos moldes da indústria. O surgimento dos conhecimentos de química e as várias descobertas científicas e técnicas levam a uma reformulação total das matérias e dos produtos da perfumaria. O comércio de flores de luxo e dos perfumes vai se tornando pouco a pouco uma arte.

O progresso da química propicia a fabricação de moléculas artificiais capazes de reproduzir as qualidades olfativas das essências mais raras, enriquecendo as opções do perfumista com sensações inéditas. Passa-se a consumir perfume na forma de sais de banho, sachets para armários, entre outras formas. Em 1870, o escritor Brillat-Savarin inventa o vaporizador, simplificando o uso das preparações alcoólicas.

Esse crescimento também foi dependente das fábricas de produção de vidros, que passaram a produzir os frascos em vidro em série e a preços mais baixos. Tudo isso levou ao surgimento e crescimento das grandes maisons da perfumaria: Houbigant, Piver e Guerlain, que produziu a Eau de Cologne Impériale para a Imperatriz Eugénie e recebeu, de Napoleão III, o título de “Perfumista Oficial da Sua Majestade“.

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7. 1900 a 1950

Na Belle Époque, o perfume se torna um produto de luxo, com François Coty, perfumista de vanguarda, e Renée Lalique, joalheiro e criador de frascos em cristal da perfumaria moderna.

Nos anos 20, Coco Chanel cria um perfume revolucionário com notas de aldeídos, N°5 (1921). A maison Guerlain cria Shalimar, um oriental que se tornou seu maior sucesso. Após a guerra, os perfumes voltam a dar um ar de sedução e as atrizes de Hollywood passam a inspirar criadores: Christian Dior lança seu primeiro perfume, Miss Dior (1947), e Nina Ricci lança l’Air du Temps (1948).

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8. A partir dos anos 1950

Nos anos 50, a arte da perfumaria fica mais democrática, tornando-se financeiramente mais acessível. Ocorre o surgimento das águas de toilette masculinas, associadas ao ritual de se barbear e a difusão do perfume americano.

Nos anos 70, surgem os perfumes masculinos verdadeiros, dissociando o ato de se perfumar e de se barbear.

As preferências de fragrâncias mais suaves ou mais marcantes vão mudando de acordo com a moda ou fatos marcantes no mundo.

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Fonte: Parfums et Senteurs

 

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8 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Eu não acho que tinha o perfume uma história tão longa. Sim, tinha lido que foi usado para combater a praga da peste.Obrigado. Um abraço.

  • claudio kambami disse:

    Silvia meu pai foi perfumista amador, por esse motivo escrevi sobre a tentativa de fazê-lo lá no blog. O meu amor por Portugal foi exatamente por meus pais serem da diretoria de um Clube português e pelo fato de na época meu bairro ser um bairro de portugueses tanto que deixo a você uma lembrança que sobrou daquela época pois muito de registros que tínhamos inclusive os filmes de meu pai se perderam na grande inundação ocorrida em Jacarepaguá em 1996.
    Coloquei uma seta mais não dá para me identificar muito pela péssima qualidade da foto.
    Hoje o Clube vive as mínguas e perdeu a freqüência das famílias portuguesas sendo apenas um Clube em decadência tentando se manter. Uma pena.
    https://www.flickr.com/photos/120795574@N04/27393129691/in/dateposted-public/

    • Pena que as lembranças se perderam… Ainda bem que ficam nas nossas memórias, não é?
      Tão bonitinhos todos vestidos com roupas típicas de Portugal!
      Seu pai criava os perfumes em casa mesmo? Tinha algum laboratório?
      Eu sou apenas uma curiosa, admiradora e apaixonada. Mas não sei se conseguiria criar algo, porque meu olfato não é tão bom assim.
      Tentei escrever a respeito para meu próprio aprendizado. Quero pesquisar sobre as principais flores, o processo de extração da essência…
      Preciso cada vez mais me prender às coisas que me encantam, pelas quais tenho um interesse verdadeiro… Se eu não fizer isso, acho que não dou conta de continuar nesse mundo…
      Um beijo grande, com todo meu carinho! Que seu domingo seja maravilhoso!

      • claudio kambami disse:

        Não ele tinha laboratório para a fabricação dos perfumes. Se não me engano devo ter até o desenho feito a mão por ele do frasco. Vou procurar para ver se encontro, pois como te disse perdemos muita coisa dentre elas todos os filmes que meu pai tinha filmado inclusive o Nobreza Gaúcha onde conheceu minha mãe. Meu filho mais velho trabalhou uns 5 anos junto com um dos diretores da Globo André Viegas se não me engano e ficou sabendo entre alguns funcionários que a Globo tinha em seus arquivos uma cópia, porém acho que tal cópia também se queimou nos incêndios da Globo em 71 se não me engano. A Globo perdeu muito material, cheguei a procurar com um amigo querido que trabalhou na Globo e na Rede Record, mas ele não teve tempo.
        https://kambami.wordpress.com/2013/04/05/90/
        Os vidros de laboratório acredito que ainda estejam lá no quarto de tranqueiras do sítio, a muitos anos que não vou lá. <3 🙂

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