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Filme “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência” – 2014 (“En duva satt på en gren och funderade på tillvaron”)

Filme “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência” – 2014 (“En duva satt på en gren och funderade på tillvaron”)
Filme “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência” – 2014 (“En duva satt på en gren och funderade på tillvaron”)

Eu sou uma apaixonada por cinema.

E, por algum motivo absolutamente inexplicável, sou grande admiradora do cinema europeu. Gosto do seu ritmo. Do enfoque que é dado sobre a trivialidade da vida. Suas críticas veladas. Não há clareza nem um narrador que tenha que explicar o filme. As coisas são colocadas ali e cabe a cada um dar a sua interpretação.

Não estou indicando o filme. Esse filme agrada a um público mais velho provavelmente. E, mesmo assim, agrada apenas aqueles que gostam dos filmes europeus e cults.

Eu não sei se vou conseguir explicar a sensação que o filme causou em mim. Vou tentar.

(Antes, preciso fazer um preâmbulo: hoje é domingo, Dia dos Pais, estou sozinha em São Paulo, longe dos meus filhos e de toda a minha família. Estou triste desde o momento em que fui dormir ontem. Acordei chorando. Talvez a escolha do filme não tenha sido muito feliz para um dia assim. Ou talvez seja justamente o estado de espírito que o filme pede. Não sei.)

O filme reflete sobre a banalidade do dia a dia. Sobre a falta de perspectiva. A fragilidade da vida. Sobre a morte que chega sem avisar.

Afinal, o que faz sentido? O que vale a pena? A maioria das pessoas acorda todos os dias, vive a mesma rotina, enfrenta os mesmos problemas, não se questiona, faz o que é solicitado. Ao fim do dia, volta para casa, exausta; e dorme para se preparar para mais uma jornada igual.

Talvez seja eu que me questione demais. Talvez eu esteja errada nesse mundo. Um mundo onde as pessoas fazem as coisas de forma automática, contentando-se com os prazeres vendidos pela mídia, como se aquilo tivesse partido delas, como um desejo autêntico.

Talvez eu não vá conseguir achar as palavras certas para descrever o efeito do filme em mim. Causou um desconforto. Um questionamento sobre minha vida e sobre aquilo que causamos aos outros. Tudo o que fazemos influencia outras vidas de alguma forma. O problema é que muitas vezes essa influência é ruim. Qual é meu direito de prejudicar alguém visando o lucro ou apenas o meu bem estar?

Eu resolvi adicionar duas matérias sobre o filme. A primeira é de Érico Borgo do site Omelete:

Não há maior filósofo atuando no cinema hoje do que o sueco Roy Andersson. Depois do excepcional Vocês, Os Vivos (2007), ele retorna com En Duva Satt på en Gren och Funderade på Tillvaron (2014), ou em inglês A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence – algo como “Um Pombo Sentado em um Galho Refletindo Sobre a Existência”.

O estilo segue exatamente o do filme anterior. Enquadramentos imóveis, com grande exploração de profundidade e estética meio desgastada, atemporal, em que transcorrem cenas – algumas vezes surrealistas, outras de simplicidade extrema – sem qualquer corte, com certa teatralidade.

Situações repetem-se com personagens diferentes, que se cruzam de um quadro a outro. Só os dois vendedores tristes da “indústria do entretenimento” retornam ao longo do filme todo, participando de vários dos esquetes.

Solidão, perda, bens materiais, depressão, amores, família, capitalismo, tempo, saúde… Basicamente toda a existência humana sofre o bem-humorado escrutínio do cineasta. Seus caricatos personagens parecem recortados em papelão, observando a vida e os acontecimentos à espera da inevitabilidade da morte.

Há sequências engraçadas, que arrancam gargalhadas enquanto fazem refletir. Mas o final, o glorioso capítulo “homo sapiens”, é o que efetivamente faz as perguntas diretamente, em um momento bastante duro do filme. Para encerrar sua trilogia existencial, formada ainda por Songs from the Second Floor (2000), Andersson precisava olhar para nós, os vivos, e ter certeza de que sua mensagem foi efetivamente compreendida.

O novo longa dirigido por Roy Andersson é um choque em meio aos outros exibidos atualmente. A surpresa se deve ao fato do filme ter apenas 39 planos. Para uma comparação rápida: o trailer de Vingadores: Era de Ultron (2015) tem mais de 60 cortes. Sentar para assistir esse filme sueco é uma mudança de velocidade tão brusca que os primeiros minutos podem desnortear.

Precedido por Canções do Segundo Andar (2000) e Vocês, Os Vivos (2007), Um Pombo Pousou num Galho, Refletindo sobre a Existência (2014) é o último da trilogia, na qual o diretor busca retratar, de maneira peculiar, o ser humano. O modo de expor seu olhar continua como nos filmes anteriores: planos longos, câmera estática, palidez e sarcasmo.

Um Pombo… inicia com um prólogo de 3 esquetes sobre a morte. O começo parece avisar que tanto a vida quanto o próprio filme são efêmeros e sem sentido. Melancolia e humor negro, combinados de forma sutil, perpassam por todos os 100 minutos do enredo.

Durante a trama há apenas 2 personagens que são recorrentes: vendedores de bugigangas que tentam, sem sucesso, negociar seus produtos. Sam e Jon, os irmãos negociantes, apresentam-se com desânimo e falta de habilidade para vender seus “divertidos” apetrechos, criando um tom cômico e de desgraça na dupla. Além desses, os esquetes não possuem uma linha narrativa linear e cada um conta sua própria história: avareza, hipocrisia, guerra, tempo… A margem para interpretações é gigantesca, pois o diretor busca não deixar claro quais as mensagens. Foi neste viés que o filme foi premiado com Leão de Ouro em Veneza, no ano passado.

Filmes com poucos movimentos não são fáceis, pois o cotidiano tenta constantemente nos acostumar com velocidade e informação imediata. Não é à toa que a pintura não é tão atraente como antes. Marcel Martin diz em seu livro “Linguagem Cinematográfica” que “a história da pintura, do ponto de vista da expressão da temporalidade, é um apelo ao cinema”; e a trilogia de Roy Andersson é a definição bruta desta conclusão. A dilatação de tempo que Monet, Renoir e Turner buscavam em suas telas aparecem da maneira mais simples possível neste trio de filmes. É a contemplação de pinturas com profundidade de campo e o desejado movimento que as artes plásticas não tiveram por séculos. Concentrar-se aqui, então, exige atenção redobrada; do contrário periga-se cair no desinteresse e na procura de algo mais ligeiro.

 

 

– Sílvia Souza

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14 Comments
  • Diogo Pontes disse:

    Meu comentário não está na questão central do seu post, mas percebo que pessoas que questionam muito, sofrem muito! Eu, por exemplo, questiono absolutamente tudo o que me certa e, obviamente, isso me traz uma enorme inquietação, tristeza, depressão, entre outras consequências. Ser questionador e, ao mesmo tempo feliz, é uma tarefa muito difícil.

    • Sílvia Souza disse:

      Eu acho que é impossível!
      Também me sinto assim. Não há conforto, mesmo que as coisas estejam boas. Tenho uma sensação de insatisfação permanente.
      Embora não seja se referindo ao questionamento, mas algo semelhante (na minha opinião), há uma frase de Ernest Hemingway que diz:
      “Felicidade em pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço.”

      • Diogo Pontes disse:

        Algumas vezes desejo ser um idiota feliz, logo me areependo! Já me acostumei com a minha infelicidade crônica e gosto muito de ver a vida e o mundo sem filtros que distorçam minha percepção!

  • Sílvia Souza disse:

    Você me deixou seu e-mail outro dia, mas eu não consegui entender direito (acho que faltou o @ e acabei não escrevendo).
    Deixo o meu, caso queira escrever pra gente trocar ideias…
    souza.silvia@outlook.com

  • Olá! Achei o seu blog meio que sem querer e já me identifiquei muito. Fiquei super curiosa sobre esse filme, principalmente por causa do título…Será que encontro online? Abrçs!

    • Sílvia Souza disse:

      Olá, Thais! Tudo bem?
      Esse filme passou no cinema não faz muito tempo. Eu aluguei pelo meu canal de TV a cabo.
      Não saberia te dizer se está disponível online.
      Se achar online, veja se tem legenda, porque a língua original do filme é o sueco.
      Beijo!

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