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Filme “Que horas ela volta?”

Filme “Que horas ela volta?”
Filme “Que horas ela volta?”

Eu não fui assistir a esse filme no cinema. Aliás, tenho ido pouco ao cinema por motivos pessoais. Talvez algum dia explique melhor meus motivos aqui. Mas isso não vem ao caso agora. Acabei vendo o filme nacional “Que horas ela volta?” na semana passada aqui em casa.

Confesso que não gosto da nossa produção de filmes. Acho nosso cinema fraco, não apenas na qualidade técnica, mas, em especial, nos enredos. Sempre tentei entender porque os filmes argentinos são tão melhores que os nossos. Entretanto, esse filme foi bastante elogiado pela crítica. E eu me rendi.

O duro é que me sentei aqui, de frente para o computador, para escrever sobre o filme e não sei ao certo o que escrever.

O filme fala da empregada de uma família de classe alta do Morumbi, em São Paulo, que deixa sua filha em Pernambuco para tentar ganhar dinheiro e permitir que a filha tivesse condições melhores na vida. Por outro lado, é a empregada que cria o herdeiro da família, um menino que cresce com uma mãe ausente, um pai deprimido, cada um trancado em seu mundo particular. A empregada é explorada ao extremo. Ama o menino como se fosse seu filho, mas é tratada com desprezo e preconceito pelos patrões. O grande desequilíbrio nas relações acontecem quando a filha chega a São Paulo para prestar vestibular da FUVEST, desejando Arquitetura na FAU-USP. E o rapaz da família rica também está prestando vestibular.

O filme aborda tantas coisas sutis, que é até difícil enumerá-las. O que me chamou atenção é que os atores (com exceção de Regina Casé) não parecem profissionais. E, ao mesmo tempo, parecem totalmente reais dentro dos papeis que eles desempenham. As relações entre os membros da família rica são superficiais e baseadas nas aparências. Mas eles são carentes e buscam contato físico, carinho, demonstração de afeto, porque vivem uma rotina diária onde impera a falsidade.

E fiquei imaginando a situação da empregada, trabalhando por 15 anos na casa, dormindo lá, acordando cedo, trabalhando nas festas, com algumas folgas nos finais de semana, dormindo em um quarto apertado, sempre pronta a fazer tudo pelos patrões, sem receber um sentimento sincero em retorno, um simples reconhecimento, um interesse real dos patrões pela sua vida…

Quando a filha chega, todas as relações precárias ficam definitivamente abaladas e desestabilizadas. A moça tem um comportamento um pouco irritante, provocador, e deve ser o intuito mesmo. O intuito de mostrar a fragilidade dos vínculos e as tentativas desesperadas da dona da casa de retomar as rédeas e de cortar as influências.

É um filme que tem seu lado divertido. Mas predominam a provocação e os questionamentos a respeito das relações pessoais. E mostra os contrates do Brasil, seus extremos, as diferenças sociais e culturais que marcam o país.

 

 

– Sílvia Souza

 

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12 Comments
  • Olá, Silvia. Eu vi esse filme na época do lançamento e não achei lá grandes coisas não. Vi muita gente defendendo e criticando a postura da filha dela e eu fui uma delas. Depois fui buscar outras pessoas que também tinham assistido ao filme para discutir sobre as questões nele e fiquei um pouco mais maleável. Mas ainda acho que muitas críticas ali foram exageradas. Mas vai da visão de cada um, né? Não sei se esse filme tem força para uma indicação ao Oscar, muito menos o prêmio, mas pelo menos não teve palavão, sexo e matança rs Abraço!

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Eduarda!
      Eu concordo com você que ele não é bom o bastante pra ser indicado ao Oscar. Eu não gosto da nossa produção cinematográfica; acho muito fraca.
      Eu não sei te dizer se gostei do filme. Acabei assistindo por causa das críticas boas. Há pontos positivos e negativos. Mas não me conquistou totalmente.
      Por outro lado, achei que ele aborda questões delicadas da nossa sociedade. Até achei que ele faz um retrato interessante.
      Tentei não escrever de forma tão positiva… Queria apenas apontar os questionamentos. Se mostrei algo muito elogioso, não foi meu intuito.
      Mas não é dos piores, se considerarmos nosso cinema.
      Obrigada pelo comentário!
      Beijo!

  • Eu não assisti e nem ia assistir, mas depois dessa análise confesso que fiquei interessado. Obrigado Silvia.

  • Vamos lá. Eu assisti o filme hoje. No geral, sem dúvida, é bem provável que eu não assistiria a esse filme, porque é parado, mas como eu disse, a Silvia me deixou curioso, por isso fui até o fim. E confesso, eu gostei. Para assistir a esse filme é semelhante (eu e minhas analogias, como sempre) a beber café meio amargo. Assim que você toma, sente o sabor amargo e reclama. Mas a cada degustação o café vai ficando com sabor adocicado, diferente do café um pouco doce demais que na primeira degustação é saboroso. A partir da terceira fica enjoativo. O filme começa amargo, mas você se acostuma com ele, só precisa ser receptivo e a história vai ficando saborosa. Eu digo isso, porque são nuances, as coisas ficam nas entrelinhas, exemplo, quando a “Val” “Regina Casé” parece ter a atenção dos patrões, mas na realidade são completamente artificiais. A patroa tenta ser gentil, mas possui uma indiferença enorme com a família e com a empregada. A empregada vive como se pedir um favor fosse pedir algo a Deus, tremendo de medo de incomodar os patrões. Aceita tudo. Mas com a vinda da filha as coisas mudam porque a menina começa a se sentir parte da casa, e isso causa transformações no ambiente, o que faz a história ficar mais interessante, alem de mostrar que as oportunidades de se vencer na vida estão para todos, basta se esforçar. Resumindo, mostra a coragem de uns, a solidão de outros, o arrependimento e a vontade de mudar, como aconteceu com a empregada que não quis ver a filha indo para o mesmo caminho da mãe e da filha que quis fazer o seu próprio destino. No geral, o patrão é alguém que parou no tempo, a patroa que vai empurrando a família com a barriga e não sente emoção, e o filho fica apenas coma a atenção da empregada. Por eu ter certeza de que isso realmente acontece nas famílias a história é válida. Talvez o que estraga as produções nacionais é que estamos acostumados a ver nesses filmes, atores que atuam na Rede Globo, e isso faz lembrar muito as novelas, que eu particularmente não assisto, não curto. Talvez se colocassem outros atores essa barreira ficasse menor, sei lá, é o que eu acho. Silvia, acho que o meu comentário ficou maior do que o seu post. Eu fiz igual a menina que se aproveitava do pote de sorvete! Deu moleza, aí, vai vendo. hahahahahaha

    • Silvia Souza disse:

      Leandro,
      Adorei seu comentário!
      E muito boa sua analogia com o café. Talvez nossas sensações tenham sido semelhantes, porque eu tive que esperar um pouco, refletir, buscar qual a sensação que o filme tinha deixado em mim. Meio estranho isso, não é?
      Suas colocações foram perfeitas!
      Obrigada por contribuir.
      Um beijo grande!

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