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Filme “O Melhor Lance” – 2013 (“La migliore offerta”)

Filme “O Melhor Lance” – 2013 (“La migliore offerta”)
Filme “O Melhor Lance” – 2013 (“La migliore offerta”)

Obs: Contém spoiler! (para quem planeja ver o filme, não recomendo a leitura dessa minha reflexão)

Não assisti a esse filme quando esteve em cartaz nos cinemas. Mas ele ficou na minha listinha de filmes (pois é… tenho lista de filmes, de livros, de perfumes, de cosméticos… é meu lado organizado e, talvez, um pouquinho obsessivo-compulsivo).

Não encontrava no Netflix, nem no Now, nem na Apple Store. Até que vi que iria passar em algum canal da TV a cabo e gravei. As avaliações eram todas boas e a nota no IMDB sempre acima de 7.

Assisti há uma semana. E fiquei digerindo o filme nesse período. A atuação de Geoffrey Rush é impecável, como sempre. O roteiro é muito bom e muito original. O filme vale muito a pena. Mas ele provoca (pelo menos, provocou em mim) um desconforto lá no fundo da alma; uma coisa que incomoda sem que eu consiga verbalizar direito o porquê.

É fácil sentir que algo está errado, ao longo do filme. Mas a trama é bem amarrada e, embora haja pistas, em nenhum momento me pareceu tão óbvio o que estava acontecendo.

Virgil Oldman (Geoffrey Rush) não é propriamente das pessoas mais simpáticas e carismáticas. Ele é arrogante, prepotente e aproveita-se da sua profissão e posição para cometer pequenas fraudes e trapaças para fazer uma verdadeira fortuna em obras de arte.

Por outro lado, ele é um homem absolutamente solitário, isolado em seu mundo particular. Ele faz questão de manter todos afastados, mas, no íntimo, deseja uma mulher ao seu lado. E esse fato está muito representado em sua coleção de obras de arte: são sempre retratos de mulheres, mulheres que olham diretamente para ele enquanto ele permanece sentado em seu quarto-cofre, apreciando as paredes cobertas por esses retratos.

Quando uma mulher enigmática, uma mulher real, invade seu mundo sem ser convidada e vai aguçando sua curiosidade com uma história recheada de suspense, ele se transforma em uma vítima muito fácil, totalmente vulnerável. Ele se desfaz de todos os escudos; abre a guarda a um amor que ele julgava recíproco.

Apesar de toda sua arrogância, será que ele merecia ser usado da forma que foi através de um sentimento tão nobre? Se ele tivesse sido roubado simplesmente por uma quadrilha de ladrões, não haveria o sentimento de vergonha, daqueles que faz com que a gente queira desaparecer do mundo. Por outro lado, ele não teria sido atingido naquilo que o tornava uma pessoa tão desprezível; seu lado mesquinho e prepotente.

Todas as suas obras de arte foram roubadas pelas poucas pessoas que desfrutavam da sua confiança. Foi todo um plano armado para tirar dele tudo o que ele amava (independente do valor monetário), algo que não poderia ser restituído, nunca mais conquistado de volta. E, no meio de tudo isso, seu orgulho foi pisoteado, destruído completamente, deixando apenas um estado de insanidade permanente que apenas o tempo poderia ajudar a aplacar.

Mas tamanha destruição do caráter não tem cura; nunca se recompõe. Dinheiro, riquezas, posses… isso pode voltar. Mas aquela ferida da alma, aquela profunda, não cicatriza mais. É a confiança em si mesmo que se perde para sempre.

 

 

– Sílvia Souza

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