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Filme “O Homem Que Elas Amavam Demais” (“L’homme qu’on aimait trop” – 2014)

Filme “O Homem Que Elas Amavam Demais” (“L’homme qu’on aimait trop” – 2014)
Filme “O Homem Que Elas Amavam Demais” (“L’homme qu’on aimait trop” – 2014)

Eu gosto dos filmes franceses. Acho que já fiz essa afirmação aqui inúmeras vezes. Procuro por eles, mesmo que não sejam excelentes. Gosto da sonoridade da língua, do seu ritmo mais lento, da forma mais aberta com que tudo é tratado, com menos pudores.

Esse filme com  Guillaume Canet e Catherine Deneuve é baseado em uma história real ocorrida na França, mais especificamente em Nice, em 1976. Agnès Le Roux, futura herdeira do Palais de la Méditerranée (um cassino), apaixonou-se pelo advogado do cassino, 10 anos mais velho, Maurice Agnelet. Ele era casado e tinha outras namoradas, além do relacionamento que passou a ter com Agnès. Ele passa a manipular as decisões dela, fazendo com que ela se oponha à mãe, de tal forma a ganhar uma verdadeira fortuna. Ela fica emocionalmente instável, entra em depressão e quase enlouquece. Após uma tentativa de suicídio, ela desaparece.

A história causa uma revolta, principalmente pela forma como Agnès se entrega ao Maurice de forma consciente, sabendo das outras mulheres. Mesmo tendo sido advertida pela mãe, ela segue adiante na sua paixão, ciente de que não era correspondida.

Acho que há sempre aquela idealização de que será possível conquistar o outro; de que haverá um momento em que o carinho e o amor serão sinceros e haverá afeto real, além do sexo e do desejo. O que leva a essa ilusão? Carência?

Mas o mais angustiante é a história do seu desaparecimento. Quando alguém desaparece, permanece a esperança de que a pessoa esteja viva e voltará algum dia. No início, essa esperança causa bem estar. Mas, com o passar do tempo, o destino desconhecido e a ausência de notícias fazem crescer as angústias e a suspeita da morte. Talvez, até se passe a desejar pela notícia da morte, apenas para que haja alguma notícia.

Pensar em alguém que se ama, desconhecendo completamente seu paradeiro, causa uma dor muito grande. Imagino que deva ser algo como estar em um barco em alto mar, à deriva, sem que nunca se tenha a certeza de que o barco vai, algum dia, chegar a terra firme. As esperanças podem encolher gradualmente, mas uma pequena chama vai ficar acesa. E, embora seja apenas uma brasa minúscula, ela queima e provoca dor, que vai crescendo em inconformismo e amargura.

Talvez seja uma das maiores crueldades com quem ama. Não importa que o amor seja de mãe, de filho, de irmão, de amante, de amigo. Quando amamos, queremos notícias; queremos saber que aquele que amamos está bem, mesmo que não queira voltar, mesmo que não queira contato. E se o desaparecimento foi por uma morte, um assassinato, ao assassino deveria ser solicitado um golpe de misericórdia com aqueles que ficaram órfãos do seu amor; que houvesse apenas a notícia da morte, o conhecimento do paradeiro, o destino do corpo inerte.

 

 

– Sílvia Souza

 

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13 Comments
  • Eu nunca assisti um filme francês, mas adorei o trailer e a sinopse, parece ser muito bom… com certeza vou procurar assistir!

    Parabéns pelo seu blog, é lindo!
    Beijos ♥

    https://pensandobemtozen.wordpress.com/

    • Silvia Souza disse:

      Bom dia, Bruna!
      Obrigada pela visita e pelo comentário.
      Vou dar uma sugestão… Se você nunca assistiu a um filme francês, sugiro iniciar por outros como: “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” ou “Intocáveis” ou “A Família Bélier”.
      Eu sou uma apaixonada pela França e procuro assistir a tudo o que vejo disponível do cinema francês, mas não é algo que agrada a todos.
      E obrigada pelo elogio ao Blog.
      Acabei de conhecer o seu e estou seguindo.
      Beijo grande e um lindo domingo!
      🙂

  • Os caminhos sinuosos ao mesmo tempo que causam medo fazem aumentar a adrenalina. Essa mistura talvez seja incontrolável para algumas pessoas. O arriscar passa a ser tentador. No caso dele pode ter sido isso. No caso dela, a vítima, é o que você disse. Situações conflitantes dentro de uma história intrigante como essa que você destacou.

  • Ah, eu definitivamente encontrei uma superamiga. Amo também os filmes franceses, eles são comoventes e bastante introspectivos. O filme “Intocáveis” me deixou mais humano. O filme “Amour” me deixou extasiado. Agora preciso assistir a esse filme super indicado e observar que comoção ele me trará. Adorei seu blog, Silvia, muito lindo. Consigo captar sua sensibilidade. Ter um blog com citações de Ruben Braga, Clarice Lispector, Rubens Alves, Martha Medeiros, Fernando Pessoa, Mario Quintana e Lya Luft, só pode ser um blog/ site cheio de sabedoria, sabedoria essa que definitivamente você tem! Super beijo. <3

    • Silvia Souza disse:

      Que bom que você visitou meu espaço e gostou!
      Dentro do Blog tem o que sou e é tudo muito significativo para mim.
      Esse filme (“O Homem que elas amavam demais”) não está entre os melhores que eu já vi. Teria muitos outros filmes maravilhosos para indicar.
      Quais outros você já viu?
      Beijo grande!

      • Realmente adorei. Assisti “Amor não tem preço”, “Dois dias, uma noite” e “Queda Livre”, deve ter muitos outros, mas não me recordo agora… 😉

      • Realmente adorei… Assisti “Queda Livre”, “Trem da vida” (mas não gostei muito), “Dois dias, uma noite” (muito bom) e gostei de um que assisti recentemente “Amizades particulares” é um tema polêmico, fala da pedofilia, bem reflexivo. Deve ter outros, mas não me vem à memoria…

      • Realmente, é encantador. Assisti alguns super bacanas recentemente como “Amizades particulares” em que indaga sobre a pedofilia. Um filme polêmico, mas bastante reflexivo. E gostei também do filme “Queda livre” que narra a história de um homem casado mas que acaba se envolvendo com outro homem. Ambos complexos, mas interessantes.

        • Silvia Souza disse:

          Olá, Leandro!
          Por algum motivo, alguns comentários seus ficaram na caixa de spam e só vi hoje. Me perdoe!

          Vou te falar uma coisa que me agrada muito nos filmes franceses (talvez em vários europeus).
          É o fato de não haver barreiras, limites, nem ter que seguir o politicamente correto.
          Eles trazem à tona assuntos difíceis de serem abordados, controversos… E de forma crua.

          Eu gosto disso.
          Vou aproveitar os títulos que você mencionou pra colocar na minha lista… 😉
          Acho que não vi a maioria…
          Se tiver outras sugestões, vou adorar!
          Beijo grande!!!
          😊

          • kkk eu vi mesmo que eu colocava pra enviar a resposta e aqui pra mim não aparecia, cheguei a pensar que fosse problema com a minha internet… hahahaha… Mas relaxa… Então, é exatamente isso, gosto dos filmes franceses e europeus por desconstruir todo paradigma que construímos até aqui. Se lembrar de mais alguma, aviso. Super beijo. <3

          • Silvia Souza disse:

            Um lindo dia pra você!
            🙂

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