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Filme “Nocaute” (“Southpaw” – 2015)

Filme “Nocaute” (“Southpaw” – 2015)
Filme “Nocaute” (“Southpaw” – 2015)

Fiquei na dúvida se seria mais um daqueles filmes sobre boxe que mostra a tentativa de superação do lutador. Tem isso também. Mas o que me conquistou nesse filme foi outra coisa. O que me conquistou nesse filme foi o amor do homem pela mulher e por sua filha.

Billy Hope (Jake Gyllenhaal) é um lutador de boxe, campeão na sua categoria. Ele passara a infância em uma instituição para menores, onde conheceu seus melhores amigos e aquela que seria sua esposa. Não teve uma infância e uma adolescência fáceis, mas o boxe ajudou-o a desenvolver uma disciplina e a prosperar. Mas a grande responsável por seu crescimento, seu equilíbrio e suas vitórias, é sua esposa, que soube ficar ao seu lado, ser ponderada, chamá-lo à razão e ajudou com que ele controlasse sua raiva. Era ela que seus olhos buscavam durante as lutas. Era ela que ajudava na concentração antes das lutas. Era ela que cuidava de seus ferimentos após as lutas. Ela era a sustentação. E ele tinha consciência disso.

E eis que ela morre de forma trágica. Seu ponto de equilíbrio não existe mais. E ele também se sente um pouco responsável pela morte dela. Ele afunda na carreira, perde tudo o que tinha e, o pior de tudo, perde a guarda da filha, que passa a ser cuidada pelo serviço social até que ele se recupere e se mostre capaz de cuidar da menina.

Ele vai atrás da reconstrução de sua vida pela filha. Ele começa do zero, depois de ter sido abandonado pelo agente que cuidava de sua carreira e pelo seu treinador. Tenta equilibrar sua vida sem o suporte que tinha antes na esposa. Faz de tudo para ter sua filha de volta com ele.

A maioria das pessoas tenta contar apenas consigo mesmo. Evita parcerias, não confia em ninguém. Mesmo quando se conta com a ajuda do parceiro, do pai, do amigo ou de outra pessoa, quantos são aqueles que reconhecem essa ajuda? Quantos são gratos? Quantos tentam retribuir a ajuda, mesmo que não tenham sido cobrados? Quantos são aqueles que dizem: “eu cheguei aqui porque você esteve ao meu lado”?

Tendemos a aumentar nossa importância e reduzir o papel coadjuvante daqueles que estiveram ao nosso lado em nossas conquistas. E não vejo nenhuma vergonha nesse reconhecimento. Muito pelo contrário. Acho que demonstra honra, gratidão, caráter. Não é sinal de fraqueza mostrar que alguém esteve nos ajudando.

Eu sei, por exemplo, que eu tenho um perfil de estar muito mais na sombra, no suporte, do que de ser a pessoa de destaque ou das conquistas. E já tive pessoas que reconheceram minha importância nesse papel, assim como houve gente que ignorou minha ajuda. Não faço nada para ter reconhecimento. Mas é bom perceber que o outro deu a devida importância; isso estreita os vínculos, cria pontes de confiança, parceria e identidade.

Com certeza eu também não devo ter dado os devidos créditos a muitas pessoas que estiveram ao meu lado em momentos que precisei. Às vezes, sinto que temos a necessidade de alimentar o orgulho próprio e o ego, para mostrar que somos capazes de vencer por nós mesmos.

Mas acho lindo esse reconhecimento da necessidade do outro. O amor que brota dessa relação. Não de uma relação em que um dos dois se anule; mas simplesmente em que cada um desempenha uma função para crescerem juntos.

 

 

– Sílvia Souza

 

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