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Filme “Hipócrates” (“Hippocrate” – 2014)

Filme “Hipócrates” (“Hippocrate” – 2014)
Filme “Hipócrates” (“Hippocrate” – 2014)

 

Este é um filme francês que pode chocar ou indignar muita gente. Eu adorei!

O jovem ator francês Vincent Lacoste interpreta Benjamin Barois, um médico recém formado que está iniciando sua Residência médica em um hospital de Paris. Ele escolhe fazer a especialização em Clínica Médica e vai para o mesmo serviço onde seu pai trabalha.

Embora existam muitas diferenças entre a medicina exercida na França e a que vivemos no Brasil, o hospital apresentado é um hospital com recursos reduzidos, onde faltam equipamentos e no qual os enfermeiros resolvem entrar em greve em busca de melhores condições de trabalho e os residentes precisam se ocupar de tarefas que fogem da alçada de um médico.

Além destes problemas, existem as questões relacionadas à fase de aprendizado, na qual alguns erros são inevitáveis, em que não se sabe exatamente o que fazer ou como agir, em que a consciência pesa quando vemos que não fizemos o melhor, ou quando os pacientes evoluem mal, ou quando nos envolvemos emocionalmente com as pessoas de quem cuidamos… Surgem as dificuldades ao dividir os plantões, lidar com o cansaço, com a responsabilidade ao ocupar-se de vidas humanas e existem os momentos de extravasar e tentar deixar o dia a dia minimamente tolerável.

O filme mostra tudo isso: o que vivenciamos e como nos sentimos enquanto residentes, médicos recém formados, que já possuem todas as responsabilidades ao lidar com os pacientes, mas ainda em fase de aprendizado.

Para aqueles que nunca viram (pessoalmente ou através de um familiar) a realidade dessa fase da formação médica, o filme pode chocar. Mas posso dizer que o diretor conseguiu mostrar de forma muito verdadeira o que se passa neste período difícil e desgastante da consolidação profissional.

Muitas lembranças pessoais retornaram à minha memória ao assistir ao filme. Passei por greves de enfermeiros e tínhamos que fazer tudo, inclusive dar comida e banho nos pacientes. Os acordos nas divisões dos plantões, buscando escapar dos feriados de final de ano. O desgaste emocional ao cuidar de pacientes graves, sem que se soubesse a causa do problema, com risco de morte… em alguns estágios, eu entrei quase em colapso e sofria de insônia e ansiedade extrema. A tristeza ao perder um paciente ou, às vezes pior do que perder, ver um paciente sofrer. Ter que enfrentar a falta de condições, de equipamentos, de medicamentos, de funcionários… Ter que enfrentar o cansaço excessivo e fazer o máximo para manter a lucidez e os reflexos rápidos…

Ainda existem pessoas que vêm a Medicina com glamour ou como uma profissão que pode dar um bom retorno financeiro. Mas a formação médica exige alma, dedicação, humanidade, entrega de dias e noites… ela exige que se enfrente a morte, a perda, o sofrimento… E o médico não é um super herói… é apenas mais um ser humano que tem que enfrentar seus próprios fantasmas, suas falhas, suas fraquezas…

Eu acho uma profissão maravilhosa… mas acho que é necessário que se tenha um dom… No filme, um dos personagens, um médico argelino que faz um estágio na França, diz que a Medicina não é um trabalho e sim uma maldição. De certa forma ele tem razão. Aqueles que amam de verdade essa profissão são chamados para ela e parece não haver escapatória.

Eu escolhi a Medicina desde que me perguntaram pela primeira vez o que eu gostaria de ser… já tentei fugir dela… mas sempre acabo voltando.

O filme é bom, eu gostei. Mas quem não é da área deve se preparar par ver a realidade chocante do que é se tornar médico.

 

Aos meus colegas, Parabéns pelo Dia do Médico!

 

"The Doctor" de Irit Bourla
“The Doctor” de Irit Bourla

 

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6 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Olá Silvia, a medicina é uma profissão que exige enorme dedicação aos outros, eu acho que o único que mantém o respeito da sociedade em geral. E os médicos são pessoas que têm qualidades especiais sempre agindo em favor da vida e contra a dor. Para mim todos eles são pessoas maravilhosas que dedicam o tempo livre ao estudo constante e de aprendizagem por que eles estão cientes de que eles têm em suas mãos a vida dos outros. Um abraço.

  • Monica disse:

    Caramba, além de tudo você é médica… Beijo na alma!

  • Mariel F. Fernandes disse:

    Gosto de vir aqui. Me sento, fico à vontade, escuto o que vc tem a dizer e saio melhor do que quando cheguei.

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