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Família

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O que significa, de fato, ser da mesma família? Eu poderia simplificar dizendo que a família apenas reúne pessoas com um código genético semelhante e nada mais?

Não consigo acreditar que seja apenas isso.

Conviver com alguém desde que nascemos ou desde o nascimento desse alguém permite um elo que vai além dos genes; acho que independe deles. Tanto acredito nisso que observo que existem amigos que se conhecem desde a mais tenra idade ou de crianças que foram adotadas e passaram a conviver com pessoas diferentes geneticamente e, tanto em um caso como em outro, as ligações afetivas podem ser tão fortes quanto de pessoas nascidas dos mesmos pai e mãe.

Entretanto, apesar dessa minha crença, eu não consigo entender como dois irmãos, que viveram anos na mesma casa, dormindo no mesmo quarto, possam simplesmente se distanciar, não ter prazer no contato, no abraço, em escutar a voz acolhedora que remete aos ingênuos anos da infância.

Quais são as mágoas e sofrimentos guardados em um deles capazes de anular qualquer sentimento positivo e de carinho? Qual seria a força extrema de eventos da vida capaz de tornar dois irmãos tão contrários nas opiniões, nos gostos, nos valores, nos desejos? Mesmo que os dois tenham sido criados no mesmo ambiente e sob os mesmos cuidados?

Acho natural que, se passamos a vida ao lado de alguém, possamos deixar brotar, no mínimo, um carinho; mesmo que não haja amor; mas carinho, preocupação, interesse deve existir. Não?

Será muito difícil deixar de olhar para seus próprios problemas e tentar compreender a vida do outro? Não digo analisar a vida do outro com seus próprios olhos. Porque isso não ajuda. Não adianta dar a solução das crises do outro com sua própria carga emocional, sua própria vivência e razão. Eu falo do esforço de enxergar o outro. Analisar como o outro vive, quanto ganha, quais são as dificuldades que enfrenta. E, dentro dessa perspectiva, olhar para os problemas do irmão com os olhos do irmão. O quanto isso é difícil? Sendo que o irmão não é um desconhecido com quem se trocou um “bom dia” apenas. Mas é alguém que você conhece há 30, 40, 50 anos. Uma pessoa que compartilhou sua vida e sua história.

Eu questiono tudo isso e, ao mesmo tempo, não sei bem onde estou e quem sou. Porque acho que sou autocentrada demais algumas vezes e, em outras, acho que não vou atrás dos meus sonhos e desejos. Há pessoas que dizem que estou querendo abraçar o mundo e resolver todos os problemas; outras dizem que eu preciso me envolver mais e ajudar a amenizar as desavenças entre as pessoas que amo. Sou mais ou menos? Preciso fazer mais ou menos? Onde é meu lugar em tudo isso?

Nada material vai restar da nossa vida quando partirmos. Nem nossos bens. Nem nosso corpo. A única forma de continuarmos vivendo por mais algum tempo é através das lembranças das pessoas que nos amaram, que nos conheceram; aquelas pessoas a quem destinamos um olhar de compreensão, um gesto de atenção ou uma palavra gentil ao longo da vida.

Se isso é o que vai sobrar, ainda assim é tão difícil abrir mão do próprio orgulho? É tão difícil desviar o olhar do próprio umbigo e tentar amar a pessoa que passou tantos anos ao nosso lado, compartilhando o melhor e o pior?

– Sílvia Souza

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11 Comments
  • Silvia, por hora é muito comum acontecer isto em algumas familias, onde um dos irmãos ou as vezes mais de um deles, depois da maioridade saem a procura dos seus ideais, numa conquista do mundo, pegando tudo o que tenha algum valor para si para dentro do bolso, uma disputa burra, um desejo de mostrar aos próximos que da familia foi o único a quem “conquistou” o mundo, mas esquece que as maiores joias sempre tiveram so seu lado, alguns tem a chance de retormar esta joia mesmo mais velhos (anos depois), outros acabam partindo ou ver partindo sua joia sem nunca despedir, e fica-se vagando neste mundo material com uma baita venda nos olhos. É como vejo hoje em dia (casos semelhantemente ao que descreveu).
    Um beijoo Silvia!

    • Silvia Souza disse:

      Mas não traz satisfação real, não é?
      É algo vazio e que leva a solidão.

      • Exatamente isso Silva. É isso, repare todo eles (irmãos) tem uma busca vazia por conquistas temporarias, só o tempo tomará eles pelas mãos e te trarão de volta com… Perdão meu irmão, perdão minha irmã porque falhei feio com a vida… assim, cabe a nós perdoar, perdoar e perdoar nada mais estendendo aos braços desde longe.

  • M.Raydo disse:

    Adoraria agora, neste exato momento, te dar milhares de exemplos maravilhosos em que eu pudesse te trazer uma luz e um conforto. Porém, eu como o filho mais novo de dez irmãos, só posso lamentar em dizer que nenhum é presente pra caramba em minha vida!
    Esta questão: família – daqueles que nasceram da mesma mãe e pai…. simplesmente quase não sei nada e desconfio que, assim como eu mesmo, já não fazem grandes questões!
    Agem com desconforto e desconfiança, com raras exceções! :p
    Creia, eu os amo e quero bem, mas a vida continua e no fim, família são os que estão debaixo do mesmo teto! 😛

  • M.Raydo disse:

    kkkk! Eu creio que sim! Porque não?!

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