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Falsa segurança

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Falsa segurança

Um dos conceitos que aprendi nos ensinamentos budistas (e que teve um impacto enorme na minha vida) foi o da Impermanência. Quando penso racionalmente, percebo o quanto este conceito é óbvio. Não deveria ter sido tão revolucionário para mim. Mas foi!

De acordo com a Impermanência, tudo muda, nada dura para sempre. Nada! Tudo, em maior ou menor velocidade, sofrerá a ação do tempo; as pessoas envelhecem e vão mudando a partir das experiências que vivenciam. Não conseguimos congelar um determinado momento ou um sentimento ou um pensamento. Estamos sob a influência constante de tudo o que nos cerca.

E, mesmo tendo consciência de tudo isso, vivemos na busca incessante da segurança, da situação estável que será capaz de nos manter tranquilos pelo resto de nossos dias. Buscamos o amor eterno; a relação indestrutível; o trabalho perfeito; a fonte da juventude; a galinha dos ovos de ouro; tudo aquilo que nos permita aposentarmos nossas angústias.

Eu gostava de viver uma rotina absolutamente programada. Tudo deveria sair conforme o esperado. E, como era impossível que isso acontecesse na maior parte dos dias, eu me irritava constantemente e sofria tentando consertar as coisas, para que coubessem no meu planejamento.

Precisei de muitas rupturas na minha vida para perceber que muitas coisas aconteciam sem meu controle (na verdade, quase a totalidade das coisas): muitos relacionamentos (de amores eternos) que não deram certo, inclusive meu casamento; algumas mudanças de carreira, começando tudo do zero até tentar encontrar meu caminho (por enquanto… até nova mudança); o envelhecimento inevitável do corpo, da visão, da pele, da flexibilidade; a percepção de que sempre pode haver uma mudança inesperada e levar embora a economia de anos; uma doença pode aparecer e mudar nossas prioridades.

Eu acho que temos que nos programar para o futuro, mas de uma forma que valha a pena e que nos permita viver bem o momento presente. Às vezes, tenho a impressão de que a Medicina tenta aumentar a expectativa de vida simplesmente para tentar compensar os anos perdidos em trabalhos exaustivos e desinteressantes, de tal forma que cada pessoa consiga vislumbrar a possibilidade de viver bem quando a aposentadoria vier. Mas nenhuma geração chegou à aposentadoria depois de vidas tão estressantes enquanto jovens.

Por que não tentamos transformar cada minuto presente (que é aquilo que temos de verdade) em algo melhor? Seria possível ser mais gentil? Criar relações sinceras com as pessoas? Evitar a falsidade? A mentira? Dar um pouco mais de si mesmo, sem a expectativa de receber algo em retorno? Olhar cada pessoa nos olhos? Escutar de verdade o que o outro tem a dizer? Desenvolver empatia? Colocar-se na posição do outro e entender as dificuldades pelas quais cada um passa?

É tão difícil! Mas é o que realmente permanece. As pequenas relações que vivemos e construímos constituem-se nos substantivos abstratos mais reais de nossas vidas! Tudo aquilo que julgamos possuir (sejam objetos ou pessoas) não nos pertencem de fato, porque podemos perder a qualquer momento; afinal, tudo é impermanente.

Com certeza não consegui implementar todas estas mudanças na minha vida ainda. Mas eu tento, dia após dia. Talvez um dia eu tenha sucesso. E talvez conserve aquilo que é realmente importante quando novas mudanças drásticas acontecerem (o que é inevitável).

– Sílvia Souza

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4 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Olá Silvia acha que os ovos são melhores do ouro que do outro, para que não anfade-se removê-los. Eu sei que tem sido um erro de impressão engraçado. E a vida nos ensina, mas às vezes não somos capazes de ouvir, é conhecido por ser atingindo idade para aceitar as alterações e espero que todos os dias nos trazer a sua própria alegria. Eu nem sequer agendar a comida que eu cozinhar amanhã, será mais importante para assistir ao nascer do sol. Ou falar por um longo tempo com um ente querido. Ou tirar uma foto que eu gosto. Ou meditar e limpar a mente que faz muito bem. Acho que agora é a verdadeira riqueza. Um beijo.

    • Olá, Carlos!
      Ainda bem que você me avisou do meu erro (ouro por outro)!!! Eu releio sempre antes de publicar e, ainda assim, passam tantos errinhos…
      Você está certíssimo na sua forma de encarar a vida (eu acho pelo menos). Mas confesso que não acho tão simples colocar em prática. Exige um exercício diário. Acho que tenho conseguido, pouco a pouco. Mas ainda tenho muito o que melhorar…
      Beijo!

  • claudio kambami disse:

    Amei Silvia ler isso. Aprendi que é exatamente assim e não sei se pensa dessa forma também, mas a unica coisa que me serve e me sustenta foi algo que aprendi com tribos africanas ditas ou vistas como atrasadas e chama-se Ìwa Pèlé (bom caráter) para os Yorùbá e Muxima Puema (bom coração) para os Bantu de resto devemos mesmo é deixar a coisa acontecer, pois tudo muda a cada momento e nada é certo a não ser o conhecimento de nossa partida. <3 🙂

    • É isso mesmo, Cláudio!
      Este conceito de “ser atrasado” é tão vago, não é? Depende do que estamos considerando… Às vezes, acho que eles podem não ter a mesma cultura ocidental, mas, com certeza, prestam mais atenção à Natureza e à interação do homem a ela…
      Um beijo grande, com carinho!

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