Auto estima
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Exercício de escrita

Exercício de escrita
Exercício de escrita

Eu não tenho tido muito ânimo para escrever. Não é falta de ideias, mas simplesmente um cansaço e o eterno questionamento sobre o quanto realmente vale a pena deixar minhas experiências de vida registradas. Há momentos em que acho que posso ajudar outras pessoas e, em outros, tenho a impressão que esse meio de comunicação acaba não atingindo as pessoas da forma como eu gostaria.

Enquanto vou tentando recuperar meu ânimo e prazer na escrita, vou publicar aqui um texto que escrevi para um curso de escrita que estou fazendo.

Nesse exercício, escolhi uma manchete qualquer do jornal e escrevi um texto baseado na manchete. Foi um exercício interessante.

Segue a manchete escolhida no cabeçalho e abaixo o meu texto.

 

Recém-nascida é encontrada em calçada sob árvore em Sorocaba

A menina começou a ter dores. Não posso chamar ninguém. Vou deixar por conta da natureza. Sei bem que se ela morrer, fica muito mais difícil pra mim; mas darei um jeito. Ela está gritando… desse jeito vai chamar a atenção dos vizinhos… eles vão ficar curiosos. Vou lá falar com ela, quem sabe ela acalma.

“Minha filha, minha santinha, não grita, não… Olha, o pai está aqui… Essa dor é forte, mas ela vai passar rapidinho, você vai ver… Pode chorar baixinho, mas não grita, não…”

Ela aquietou. Mas o choro não tem como segurar. Cada lágrima grossa que tá escorrendo dos olhos dela… eu nem sabia que dava pra sair lágrima assim tão grossa. Ah! Quanta água que escorreu por baixo! Será que ela fez xixi? Não, o cheiro não é de xixi. Deve ser a água que fica em volta do bebê. Então não deve demorar muito pro bebê sair. Aí ela acalma.

Menina assim como ela não devia poder parir. Por que Deus coloca no mundo uma menina assim e que pode ter bebê? Isso não tá certo. Acho que nisso Deus errou. Quase tudo na Natureza é certo, mas isso não é. Uma menina que não entende o que a gente diz, que não fala, que só consegue fazer som pra gritar… abobada coitadinha… A mãe nem quis ficar aqui por causa dela… perdi a mulher por causa da menina retardada… O que que eu podia fazer? Não dava pra jogar ela na rua… E ela até que ajuda com o serviço da casa.

Parece que a dor tá ficando mais forte. Parece que vem uma dor atrás da outra, coitadinha! Vou olhar embaixo. Olha só que a cabeça já tá saindo! Já dá pra ver uns cabelinhos!

“Aguenta só mais um pouquinho, minha santinha! Já já a dor acaba!”

A menina cresceu bonitinha; até parecida com a mãe. Não dava pra deixar ela sair na rua. Iam fazer ela de boba, dar risada, se aproveitar dela. Essa molecada de hoje que não respeita ninguém. Foi melhor deixar ela em casa mesmo, sem ninguém ver. Ela não ia saber se defender das pessoas. Eu tinha que proteger ela e pra isso ela tinha que ficar trancada em casa. Não tinha outro jeito.

E também não dava pra eu sair. Nem deixar ninguém entrar aqui. Não podia mais ir nos bailes, nem namorar. Dureza ficar trancado em casa, cuidando da menina, sem poder ter mulher. O que que eu podia fazer? A vida foi ficando assim, errada. Nós dois trancados aqui, eu sem poder ter mulher. Ela crescendo, ficando bonitinha, com os peitinhos crescendo. Sei que não era certo. Sei que Deus pode me castigar. Mas também não era certo Deus ter me dado uma filha abobada, a mulher ir embora e eu ficar cuidando sozinho da menina. Sei que não é certo a filha virar namorada. Só que eu não aguentava mais ficar sozinho e ela ali, tão bonitinha. Tinha que dar banho nela, esfregar o corpinho dela. Aconteceu. Será que vou pro inferno? E ela? Deus não pode castigar ela, porque ela nem sabe direito das coisas, coitadinha.

Nossa! Ela tá fazendo muita força! Tá até trincando os dentes! Vou olhar…

Tá saindo! Tá quase… Tem uma gosma branca em volta e… credo… tá saindo um pouco de cocô também. Devia tá espremendo os intestinos.

“Minha santinha, a dor já já vai diminuir… Tá acabando, viu?”

Olha lá, saiu tudo! Deixa ver… é uma menina. Será que é igual à mãe? Será que vai ser surda, muda e boba? Já tô ficando velho. Não vou conseguir cuidar de outra menina assim… E agora? Ela até parece perfeitinha…

Ih! Tá saindo outra coisa… quanto sangue! Acho que eu tenho que soltar esse cordão… cortar. Aqui tem uma tesoura. Pronto! Cortei. Será que dou um nó pra parar de sair sangue? Acho que deve ter que dar um nó.

A menina quer ver a filha. Será que ela sabia que tava parindo? Será que ela sabe de alguma coisa? Mas ela é tão retardada!

Agora a bebê tá chorando. Como chora forte!

“Santinha, essa bonequinha aqui tá quebrada. Não posso deixar você segurar. Não chora mais não! Não fica triste. Ela tá quebrada. Vou levar pra consertar e depois eu volto. Dorme aí um pouquinho. Descansa. Você deve tá cansada de tanto esforço. Fica aqui dormindo. Não precisa chorar mais. O pai já volta.”

Vou pegar esses lençóis. Onde vou deixar essa bebê? Vou levar longe. Acho que perto da praça. Sempre passa gente. Alguém vai ter dó dessa bebê. Eu não vou conseguir cuidar dela. Ainda mais se for igual à mãe dela. O que que eu posso fazer?

– Sílvia Souza

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