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Exercício de escrita

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Exercício de escrita
Exercício de escrita

Faço um curso de escrita, em uma tentativa de melhorar meus textos e evitar erros. Costumo publicar aqui no Blog os textos que produzo para o curso. Nesta quinzena, o tema do texto é Olimpíadas.

As Olimpíadas seguem aí firmes e fortes, até semana que vem. Elas originaram-se por volta do século VIII a.C., no contexto da antiga Hélade, isto é, o conjunto das cidades-estado da Grécia Clássica. A realização dos jogos ocorria na cidade de Olímpia – por isso o nome “Olimpíadas” –, para onde os cidadãos das outras cidades peregrinavam a fim de participarem das competições. O primeiro atleta a vencer uma prova em Olímpia teria sido Corobeu, em 776 a.C. – a prova era de corrida.

A produção do texto era completamente livre, apenas tendo como inspiração os Jogos Olímpicos. Meu texto está abaixo. Gostaria apenas de frisar que os fatos citados são reais, assim como o personagem do meu texto. Mas a carta em si foi criada por mim.

 

UMA CARTA DE DESPEDIDA

Uma carta desconhecida, escondida em algum arquivo nazista.

 

Berlim, 19 de Agosto de 1936

Sei que não me resta alternativa. Depois de toda minha dedicação, meu esforço não foi reconhecido e, mediante exigência do partido, fui obrigado a me afastar do meu cargo antes mesmo do início dos jogos.

Quero deixar registrado tudo o que sei sobre a realização deste evento. Tudo foi friamente calculado e projetado para que a Alemanha fosse vista com admiração pelo restante do mundo.

O Führer Adolf Hitler soube perceber a importância de insistir na realização dos jogos em Berlim. E ele exigiu a dedicação total dos oficiais e da população para que os jogos não tivessem precedentes na história. Projetaram-se estruturas nunca vistas e um estádio gigantesco. Cuidei diretamente das obras envolvendo a Vila Olímpica. Nada poderia ser improvisado; todo o cronograma era rigorosamente supervisionado.

Os atletas, muitos deles vinculados aos programas militares nazistas, receberam treinamentos exaustivos, porque precisavam mostrar sua superioridade em relação aos atletas de outros países, especialmente em relação aos países sem pureza de raças. Os treinos não foram em vão. A Alemanha ganhou 89 medalhas, ficando em primeiro lugar.

Nossos engenheiros trabalharam como nunca. Desenvolvemos coisas inéditas. Eles tiveram êxito na transmissão ao vivo de eventos olímpicos para aparelhos de televisão em toda Alemanha. Joseph Goebbels conseguiu todas as armas que precisava para incentivar a admiração ao povo alemão e à sua superioridade.

Toda a pobreza, toda a miséria e o preconceito foram escondidos do mundo. Os ciganos foram removidos de Berlim. A cidade precisava estar absolutamente limpa. E linda. Não houve falhas. Os governantes pensaram em tudo. Não sobraram pontas soltas.

E o toque máximo foi a ideia da Tocha Olímpica e de seu Revezamento, partindo da Grécia, até sua chegada a Berlim. O Führer fez questão de vincular a superioridade da raça ariana aos antigos gregos. E pensou-se em fazer isso através deste percurso da Tocha Olímpica. Esta ideia foi intensamente aplaudida pelo Comitê Olímpico Internacional.

Os jogos olímpicos de Berlim foram perfeitos. Tudo saiu exatamente como planejado. Faz três dias que os jogos terminaram. O êxito foi completo.

A falha, que me leva a esta medida extrema, surgiu por causa dos meus ascendentes. Sou alemão, vivi minha vida toda na Alemanha, dedicado a ela. Combati na Primeira Guerra, defendendo meu país. Cuidei diretamente de todos os detalhes que envolveram a Vila Olímpica. Torci pelos atletas do meu país. Mas percebi que eu, um alemão, não sou considerado como tal pelos governantes. Eu não estou entre aqueles de raça pura.

De repente, percebi que não pertenço mais ao país onde nasci e ao qual dediquei minha vida. Sou e sempre fui militar. Não poderei mais desempenhar minhas funções. Não consigo ver um futuro para mim e percebo o que está acontecendo na Alemanha. Prefiro não estar vivo para testemunhar o que está por vir.

Coloco um fim à minha vida na esperança de que o mundo veja a realidade de abusos por trás da propaganda enganosa que os Jogos Olímpicos de Berlim deixaram para todos os países.

Assim me despeço.

Wolfgang Fürstner

 

 

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4 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Ola Silvia. Acho que voçe escribe un artigo muito interesante referido a um home vitima do mesmo mutismo mundial que celebraba a arribada de Hitler ao goberno alemâo e mais as masacres gerais na Europa. É uma triste historia que no devemos esquecer. Um beijo.

    • Obrigada, Carlos!
      Quanto mais eu leio, escuto, aprendo, mais eu vejo como foi tudo muito bem planejado. E isso me preocupa, porque muitas pessoas não fazem muita questão de se aprofundar em assuntos como a política (pelo menos aqui no Brasil) e podem acabar sendo facilmente manipulados por pessoas desse tipo.
      Beijo!

      • Carlos Moya disse:

        Olá Silvia, na minha opinião é terrível a ignorância. Eu acho que as causas são a pobreza ea fome, eles geralmente vem da mão da inflação que traz a dívida exorbitante e empobrece a população. Beco sem saída que é usado pelos fascistas que apontam para um grupo de culpado e contando com a seleção natural. Em Viena libra de pão em 1914 custa 14 centavos, 15 anos mais tarde, em 1929, foi pagaga para 120.000 marcos. algo pior aconteceu na Alemanha, onde impresso bilhetes para um valor de 100 bilhões. Será que estamos agora na Europa que o processo se repetir? Enquanto nós mantemos viva as memória desse tempo terrível espero que não. Um beijo.

        • É algo terrível mesmo!
          Não vejo algo assim acontecendo na Europa. Mas me preocupo com os extremistas religiosos, que, com outra proposta, também conseguem convencer as pessoas contra grupos específicos. Todos os tipos de intolerância e de ódio são terríveis.
          Beijo!

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