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Eu sou D. Quixote

Borboleta
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Eu sou D. Quixote
Eu sou D. Quixote

Comecei a ler o livro “O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha” de Miguel de Cervantes. Era um dos grandes clássicos da literatura mundial que eu nunca tinha lido. Um vazio que persistia na minha vida cultural e de amante de literatura que sou.

Eu achava que o livro seria triste e nunca me entusiasmei na leitura. Mas tinha que ser algo bom. Era difícil imaginar um livro concluído e publicado em 1604 e que ainda se mantivesse entre os maiores destaques da literatura, o precursor do romance, com um personagem tão conhecido e que não fosse bom.

Aproveitei o gancho de que meu filho teria que ler uma adaptação do romance para as aulas de Espanhol e resolvi acompanhá-lo, mas com o livro em português e em sua versão integral.

Ainda falta muito. Estou na metade do primeiro volume. E estou absolutamente encantada pela história.

O grande problema é que me identifiquei com o personagem. E não sei se isso é uma qualidade ou um defeito. D. Quixote é um homem que leu muitos livros de cavalaria e, em um determinado momento, resolve se tornar um cavaleiro e viver as aventuras descritas nos livros. E ele vive em seu mundo particular, enxergando gigantes no lugar de moinhos de vento e acreditando que as pessoas que ele encontra são nobres e cavaleiros e acreditando na palavra de todos.

Há uma beleza única nessa crença. Ele vive um sonho. E acho que o mundo e a vida ficam mais belos em meio aos sonhos. A realidade é dura e feia e, muitas vezes, difícil de ser encarada. O sonho traz esperança, crença nas pessoas, colorido à vida, um sentido para tudo o que fazemos.

Mas ele é incompreendido pelo mundo e tomado por louco por todas as pessoas que ele encontra. E esse é o aspecto triste de viver nesse mundo irreal. Ele trava batalhas e se fere e é ridicularizado. Não sei qual será o desfecho da história. Há muito ainda por ler.

As minhas inspirações não foram as novelas de cavalaria. Mas foram os livros de amor. As crenças em amores profundos e eternos e minha busca constante pelo príncipe encantado. Nos livros sempre há dificuldades e vilões e tristezas. Mas não há questionamento sobre a sinceridade do amor. Nos livros não há as dificuldades do nosso dia-a-dia, a necessidade do trabalho, os apegos da nossa vida e as complicações da ruptura com padrões anteriores.

A ruptura não é fácil. Implica em sofrimento e muitos obstáculos. Não é para todas as pessoas.

Talvez minha característica sonhadora tenha facilitado a ruptura. Quebrei as antigas estruturas em busca dos meus sonhos. Foi a minha batalha dos moinhos de vento. Eu acabei destruída. Mas, como D. Quixote, voltei a travar batalhas.

Não sei se D. Quixote enxergará a realidade e sofrerá por sonhar sozinho. Ainda não cheguei a essa parte. Eu enxergo a realidade e sofro por não conseguir me adequar a ela. Eu queria continuar vivendo o sonho, como se ele pudesse se tornar a minha vida. O problema é que, às vezes, acho que meu coração terá vida curta por sofrer tantas agulhadas. Não acho que as agulhadas sejam por mal. Elas só acontecem porque não pertenço a esse mundo real. Talvez eu seja personagem de um livro, que saiu de suas páginas por engano e não conseguiu mais voltar.

Não acho um grupo ao qual eu pertença. Sou inteligente e sonhadora. Romântica e apaixonada. Criança ainda, mesmo sendo mulher e sensual. Acredito no bem e na verdade. Respeito o espaço dos outros. Não me aproprio do que não é meu. Não faço aos outros o que não quero que façam para mim. Arrependo-me de todas as vezes em que não cumpri essa minha lei fundamental. Não tenho vontade de ser diferente. Mas não acho meu lugar no mundo. Não sou compreendida pelos meus pais, nem pelas minhas irmãs, nem pelas pessoas conhecidas. Talvez meus filhos me vejam. Consigam perceber a minha essência.

E esperava que você fosse parceiro dos meus sonhos. Meu príncipe encantado a enfrentar todas as bruxas, feiticeiras, dragões e demais obstáculos do caminho.

Mas não sei quantas agulhas meu coração ainda aguenta.

As lágrimas não aliviam mais as minhas dores. A única solução, se você se recusar a sonhar comigo, será transformar meu coração em pedra para fazer parte do mundo real ou cortá-lo de vez com uma espada para, quem sabe, ele criar asas e poder voar como uma águia, bem alto, ou como um beija-flor, sentindo o perfume do mundo.

Vamos ver se D. Quixote me inspira a escrever o melhor final para a minha história.

– Sílvia Souza

(texto escrito em 25-02-2014)

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