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Estou cansada

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Estou cansada

Costumo esquecer a minha idade. Não parece que tantos anos já se passaram. Tenho a sensação de que muitas coisas aconteceram outro dia… e quando vou ver, outro dia foi há 10 anos.

Não sinto que minha mente tenha envelhecido tanto. Converso com meus filhos e entendo sua visão de mundo, percebo os medos e preocupações da adolescência. E vejo que, mesmo com todas as mudanças que aconteceram, os receios são muito parecidos com aqueles que eu tinha.

Mas o problema não é a cabeça. O problema é que estou ficando cansada. O corpo não acompanha mais.

O tempo chega implacável, deixando sua marca em cada parte do meu ser. Os cabelos estão brancos e rebeldes. Muitas rugas, grandes e pequenas, vão construindo seu trajeto na pele cada vez mais delicada do meu rosto. Os olhos não conseguem mais ler as pequenas letras dos jornais. As articulações doem. Os músculos ficam mais fracos a cada dia, apesar dos exercícios. O corpo perde sua forma feminina original e ganha formas mais arredondadas. O sono vai se encurtando pouco a pouco; ou não chega na hora certa… ou desaparece cedo demais. Os sons já não são tão nítidos; e as piadas feitas com quem não escutava se voltam contra mim. A lista de medicamentos vai crescendo, amontoando-se na prateleira.

O pior é o que acompanha as mudanças. O pior é o medo. Quem consegue envelhecer sem pensar nas possibilidades? Naquilo que pode acontecer? Nossos maiores terrores? O meu? Não enxergar. Perder a capacidade de ler meus livros, de assistir aos meus filmes, de não ter independência para caminhar ou assumir os cuidados mínimos com meu corpo mantendo minha autonomia.

Mas não é o único medo. Há vários e talvez a lista fosse ficar cansativa. Uma relação interminável dos receios que acompanham o envelhecer.

Um deles vale a pena mencionar… a solidão. Acho que ter medo da solidão não tem idade. Mas quando os anos passam, os amigos já se foram, os filhos têm suas próprias vidas e vem aquele pavor de incomodar os outros… mas quem estará ao meu lado? A solidão! Ela surge implacável, com toda a sua força destruidora de esperanças, assombrando aquele coração que já levou tantos golpes, mas que está cansado de apanhar mais. A solidão assusta antes de chegar. Sua menção já causa dor no estômago, falta de ar e tremores nas mãos. Talvez o medo de confrontá-la traga consigo a morte prematura. O medo da solidão é algo mais terrível do que a própria solidão poderia ser.

Sua pancada é maior. Interrompe as batidas do coração sofrido. Congela aquele corpo frágil que cansou de brigar com o mundo.

A verdade é… estou cansada.

– Sílvia Souza

 

 

 

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11 Comments
  • laynnecris disse:

    É querida Silvia, está algo que não vamos conseguir conter nunca… o tempo que se vai e como ele todo o nosso vigor. E a solidão e sim um monstro que vive querendo assustar. Já pensei nesse fato de perder a visão. Tem livros que quero ler todo ano pra chegar um ponto de que ele esteja internalizado em mim e que quando minhas forças se esvaírem de mim e se por acaso me sobrar ainda ainda um pouco da racionalidade quero lembrar cada palavra.

    Lindo texto e uma belíssima reflexão.

    Um abraço

  • Marcos Rocha disse:

    Em meus humildes 18 anos já sinto algum cansaço: o psicológico.
    A cada dia que passa eu sinto que minha mente é mais velha do que devia. Os álbuns do Tom Jobim, Adoniran Barbosa, Elis Regina, Luíz Gonzaga e tantos outros não me deixam mentir. Parece que minha mente nasceu décadas antes de mim (talvez junto com as dos meus pais).
    O cansaço é mais uma fadiga. Fadiga de ver como anda o mundo. Como os valores vem se invertendo, como as pessoas tem insistido em se dividir o máximo possível… Fico me imaginando aos 40.
    Mas a gente segue. Não há o que fazer de toda forma. Tem que engolir o mundo como é e passar por cima.
    Como sempre: Ótimo texto, silvia. 😉

    • Silvia Souza disse:

      Obrigada!
      Seus comentários acrescentaram muito…
      Acho que essa fadiga e uma certa desesperança que imperam hoje em dia.
      😊

  • Chega um momento em que não podemos comer chocolates a vontade, mas ainda podemos experimentar algumas frações de chocolate, devido a nossa saúde. Mas nada pode tirar de nós as lindas recordações de uma juventude onde podemos tirar forças destas lembranças para aceitarmos que estamos entrando em uma nova fase em nossas vidas, mas sempre com os pés no chão, nunca esperando algo de outras pessoas. Eu particularmente me vejo conhecendo outros lugares e culturas.

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