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Estavam todos juntos

Estavam todos juntos
Estavam todos juntos

Quando aquela turma de alunos entrou na escola, era evidente que havia alguma coisa diferente, especial. Alguns vinham da mesma escola, já como um grupo. Mas outros chegaram vindos de outras escolas e, mesmo assim, houve uma harmonia entre eles, como se estivessem destinados a caminhar todos juntos, por aquela fase tão complexa da vida.

Quando mudaram de escola ainda eram crianças. Mas durante os quatro anos em que estiveram juntos, a puberdade agiu em todos; eles cresceram, seus corpos mudaram, os desejos e curiosidades surgiram. Provavelmente, o fato de passarem juntos por esses momentos de mudanças tenha contribuído para uma amizade tão estreita.

Eram bons alunos. Curiosos, interessados, questionadores e com grandes sonhos de futuro. Ao contrário do que normalmente se via, eles tinham orgulho das boas notas, do desempenho excelente, de lerem muito e os que não seguiam o mesmo ritmo é que se sentiam deslocados e distantes.

Tinham sim problemas de adolescentes… dificuldade em aceitar a hierarquia e a autoridade. Muitas vezes faziam os professores perderem a calma. E, ainda assim, todos gostavam de dar aulas para eles.

Depois de um ano que estavam nessa escola nova, a administração resolveu que havia necessidade de reformas nas salas de aulas, no laboratório, na quadra. As obras começaram, talvez sem muito planejamento, em um momento em que a economia do país não estava muito boa.

Ao final de dois anos de reformas, a direção da escola percebeu que não tinha mais dinheiro. Para nada. O laboratório não ficou pronto. As salas de aulas e a quadra conseguiram ser concluídas. Mas eles não conseguiam dar aumento aos professores e talvez não fosse possível concluir a formação daquela turma tão diferenciada e que dava tanto orgulho à escola e aos mestres.

Uma reunião foi feita. Participaram os pais, os professores e a direção da escola. E apenas por aquela turma, especificamente por causa daqueles alunos, os professores aceitaram uma coisa única: terminariam a formação daqueles meninos no Ensino Fundamental, sem exigirem aumento de salário. Os pais aceitaram colaborar, além do que já pagavam de mensalidade, para que algumas obras fossem concluídas, viabilizando as aulas. E a escola se comprometeu a acertar as contas e reduzir os gastos.

Um ano se passou com esse compromisso assumido. Os alunos concluíram seus estudos e continuaram mantendo seu interesse e boas notas.

Ao final daquele ano, os professores saíram da escola. Os alunos mudaram para outra escola para o Ensino Médio. Os pais não contribuíram mais e a escola foi vendida, deixando de ser referência em ensino na cidade.

Esses alunos que criaram esse vínculo tão forte de amizade, mantiveram seu interesse e cultivaram seus sonhos. Ao final do Ensino Médio, a maioria foi aprovada nos principais vestibulares: Medicina USP, UNIFESP, UNICAMP, UNESP; Direito USP, PUC; Poli USP; Jornalismo USP; Psicologia USP; FEA USP… e assim por diante.

Eles não deixaram de sair, de namorar, de passarem tardes uns na casa dos outros, de irem ao clube ou de fazer o que qualquer adolescente fazia. A única coisa diferente é que tinham orgulho dos seus feitos e sabiam que podiam contar uns com os outros e podiam compartilhar seus sonhos, porque os outros tinham sonhos parecidos… e até nisso eram como se fossem partes de um mesmo mundo.

– Sílvia Souza

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