Batalha (ou amor)
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Escolha dos óculos

Escolha dos óculos
Escolha dos óculos

Eu comecei a usar óculos aos 7 anos. Escrevia sempre com a cabeça deitada no braço, bem próxima ao caderno. Isso fez com que meu pai suspeitasse de que houvesse algo errado. Ele pediu para que eu lesse um jornal tampando ora um olho ora o outro e eu não conseguia ler com o olho esquerdo. Levaram-me a um oftalmologista e diagnosticaram astigmatismo. Desde então, os óculos foram obrigatórios na minha vida.

Naquela época, as crianças não faziam avaliações rotineiras da visão e, portanto, eram poucas as que usavam óculos. Havia preconceito e muita troça. Como se não bastasse, como não era algo frequente, não havia muitos modelos de óculos infantis como hoje em dia; eles eram sempre feios e resistentes. Mas, naquela época, as lentes eram de cristal. Não sei dizer quantas lentes quebrei na minha vida até que elas passassem a ser de acrílico ou de policarbonato. Armações foram outras tantas. É claro que eu tentava ser cuidadosa, mas acidentes aconteciam.

Depois de muitos anos, as lentes evoluíram. Óculos mais bonitos e importados chegaram ao Brasil. Passei a poder pagar por lentes com qualidade superior, mais finas e resistentes.

Aos 40 anos, veio a necessidade de usar multifocais. Não há como negar a idade quando a presbiopia mostra a cara. Qualquer óculos que eu compre é barato comparado ao preço das lentes. Nunca fui tão cuidadosa com meus óculos. Ainda sofro com a adaptação a essas lentes com múltiplas funções. Muitas vezes, leio melhor sem os óculos.

Mas, pelo menos, depois de mais de 35 anos usando óculos, finalmente, tenho conseguido escolher melhor as armações. Já sofri com aquelas que escorregavam pelo nariz, não ficavam ajustadas ao rosto, machucavam atrás das orelhas, feriam a ponte nasal, com plaquetas que eram duras e tantas outras coisas. Percebi que escolher os óculos demanda gostar do modelo, adequação ao formato do rosto e, acima de tudo, conforto. O problema do conforto é que ele apenas pode ser sentido durante o uso, no dia a dia, depois dos óculos pagos e já prontos. Nesse momento, não há como voltar atrás.

Foi quando me dei conta que, embora muitas marcas tenham preços semelhantes e talvez fabricantes iguais, havia diferenças essenciais. Foi ficando evidente para mim que minha opção por uma marca em detrimento de outra não era apenas pelo modelo; era que a marca de preferência nunca me machucava, não marcava minha pele, não apertava minhas têmporas.

Cada pessoa terá que fazer sua própria descoberta. Entender o que lhe vai bem, o que lhe dá conforto.

Sei que investir em óculos não é barato. Mas é a primeira coisa que visto quando acordo e a última que dispo quando vou dormir. É essencial que eu me sinta bem com a peça que enfeita meu rosto, que protege meus olhos, que ajuda na minha visão.

Cada pessoa deve fazer seu teste, escolher com cuidado e lembrar que o conforto é mais importante que a beleza.

– Sílvia Souza

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6 Comments
  • Francine Camargo disse:

    E vamos achando mais coisas em comum…seu blog tem sido uma ótima forma de dialogarmos, hehe. Comecei a usar óculos com 8 anos, foi total Miguilim, mudou meu rumo, meu sorriso, mas também tinha dificuldade em escolher o modelo, cada troca era um martírio…aos 18, lente de contato, e a correção da miopia há cerca de 7 anos. Hoje preciso de óculos para leitura, mas fujo deles absurdamente, porque parece que nada se acomoda mais. Engraçado como seu texto me despertou sensações de que eu nem mais lembrava, isso de fazer parte do corpo essencialmente…

    • Olá, Fran!
      Engraçado você citar Miguilim… Quando li esse conto de Guimarães Rosa, sabia exatamente o que aquele menino estava sentindo! Foi esse conto que despertou meu amor profundo pelo escritor (que acho um dos mais brilhantes escritores brasileiros).
      Não pude fazer cirurgia… contraindicação absoluta: olhos secos. Então, os óculos continuam parte indissociável dos meus olhos.
      Acho que já me habituei… Hoje em dia, minha dificuldade são essas lentes multifocais… >:(
      Beijo grande! Tenha um lindo dia e um lindo final de semana!

  • Carlos Moya disse:

    Os óculos têm sido por cinquenta anos a ferramenta mais útil. A partir do onze, quando o condicionamento do esporte que pode ou não pode praticar. Agora, às portas de senescência, uma característica crítica. O sol e noite para dirigir o carro. E outros intimamente essencial para ler, escrever e executar tarefas delicadas. Eu acho que sou um homem nascido ligado a cristais de míope. Ao invés de quando ele é apaixonado por um novo modelo para ver o que acontece ao seu redor. Obrigado por se lembrar de sua existência. Eles também são conhecidos aqui coloquialmente como “Quevedos”. Outro escritor, como João Guimarães Rosa Descoberto graças a você.

    • Realmente, Carlos, por mais que possamos nos queixar do uso dos óculos, eles foram revolucionários e são capazes de mudar uma existência e o aprendizado.
      Guimarães Rosa é um escritor maravilhoso. Sua escrita não é simples, nem de fácil leitura, mas vale muito a pena conhecê-lo.
      Abraço!

  • Darlene Regina disse:

    Quando estava no colegial levei uma bolada no olho esquerdo durante uma partida de futebol (sempre fui a moleca da turma) e tive hemorragia interna. Na época, depois do tratamento feito, não fui aconselhada a utilizar óculos. Anos depois, ao fazer exame para a auto escola, me informaram que eu tenho apenas 70% da visão no olho esquerdo, o que acredito ser pelo acidente na adolescência. Com uma consulta adequada, o oftalmo concluiu que tenho miopia no olho esquerdo e astigmatismo no direito, e desde então uso óculos para a maioria das atividades do dia a dia. Meu primeiro óculos tinha as lentes pequenas, redondas e me incomodava porque eu conseguia enxergar a armação dele como um pequeno círculo em volta dos olhos. Era irritante. Ano passado fui novamente ao oftalmo e ele me receitou outra lente, dessa vez escolhi um modelo tipo esses óculos de sol “aviador” e ficou muito mais confortável (embora seja pesado).

    Abraços!

    • Aos pouquinhos você consegue achar um que se adapte completamente…
      Acho que meus quase 40 anos de uso de óculos (sem poder operar e sem poder usar lente) me deixaram bastante experiente… 😀
      Sinto por saber do seu acidente com a bola… cuide bem da visão… ainda mais você sendo uma grande leitora…
      Um grande beijo, Darlene!

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