Aquário de São Paulo
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Escola

Estou fraca
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Naquele ano, teria que ir para a escola. Hoje em dia, as crianças entram na escola aos 2 ou 3 anos. Ela tinha quase 7 anos e esse era o momento em que se fazia necessário seu ingresso. Ela não estava feliz. Tinha medo.

A escola era muito grande, com alunos de todos os tamanhos.

O pai a levou no primeiro dia e tentou ajudá-la a fazer amizades com outras crianças. Ela olhava assustada, com receio daquele ambiente hostil e pouco acolhedor.

Ela vestia a camiseta da escola e um jeans. Esse era o uniforme. Carregava o material e levava uma bolsa pequena onde guardava seu lanche.

Quando o sinal tocou, entrou na sala calada, como se, com seu silêncio, tentasse calar todo o barulho à sua volta que feria seus ouvidos. Sentou-se no lugar que lhe cabia. A professora se apresentou. A professora destoava das linhas retas do concreto da escola, repletas de frieza e rigidez. A professora era arredondada, de pele enrugada e olhar caloroso. Era apenas nos olhos da professora que ela tinha conforto e se sentia em paz.

Ela não tinha dificuldade para aprender. Muito pelo contrário. Em pouco tempo, sabia as letras, lia as palavras, fazia contas, cantava os hinos. Sua dificuldade era para falar e fazer amigos. Ela mantinha-se quieta durante toda a aula, alheia a todas as conversas; no recreio, sentava-se sozinha em um dos bancos da escola e comia seu lanche, como se estivesse em outro planeta. Não tinha coragem de falar; nem mesmo para pedir para ir ao banheiro. De qualquer forma, o banheiro era sujo, com muito lixo pelo chão e paredes riscadas. E havia aquela lenda… a da loira… e ela tinha medo. Havia sempre aqueles que tinham prazer em assustar os outros; eram os mais velhos.

Conforme foi se aproximando a Festa Junina, eles tiveram que ensaiar a quadrilha. Iam para a quadra enorme da escola e dançavam por algum tempo durante as aulas. Em um dos ensaios, uma das meninas, uma que parecia muito pobre, perdeu a calcinha; simplesmente escorregou pelas pernas da menina. E todos riram da menina. Ela sentiu uma compaixão imensa pela menina envergonhada; ela sofreu, sentindo em si a humilhação que a outra sofria. Ela não conseguia entender onde estava a graça daquela situação constrangedora. E ela quis chorar.

E assim o ano na escola se passou. Muito aprendizado. E silêncio absoluto. Nenhuma amizade. Apenas a brutalidade do mundo que já lhe era apresentada desde cedo, sem disfarce nem maquiagem. E nessa escola, não tinha a irmã. Era apenas ela a travar, solitária, todas as batalhas que surgiam.

– Sílvia Souza

 

 

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5 Comments
  • tatialves disse:

    Adoro aqui =) to sempre . Um beijo!

  • laynnecris disse:

    Lembro nitidamente o meu primeiro dia de aula. Realmente era muito traumático para uma criança ser deixada ali sozinha num lugar tão imenso e tão pouco informado. Eu mal sabia pra que tinha que estar ali. Foi duro a adaptação, e realmente as escolas não era divididas e os pequenos se viam no meio dos grandões do nono ano. Sempre fui pequena e como era muito tímida de muitos só me lembro dos joelhos.

    Abraços e um bom dia.

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