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Equilíbrio

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Equilíbrio

Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos.

– Jean-Paul Sartre

Houve um momento da minha vida em que passei a olhar para mim mesma como vítima. Quem me escutasse falando, pensaria que eu não tinha tido a chance de tomar minhas próprias decisões, que meus caminhos tinham sido escolhidos para mim por outra pessoa.

Eu representava esse papel e de fato acreditava nisso. E por me sentir a vítima, achava que eu tinha o direito de magoar pessoas que me amavam. Afinal, elas tinham feito escolhas que tinham sido prejudiciais para mim… era o pensamento distorcido que eu tinha!

Aos poucos, conseguindo adotar olhares diferentes para as situações passadas, mudei de opinião. O problema é que eu tenho uma dificuldade enorme de encontrar o equilíbrio. Sinto o meu “eu” em um movimento pendular: vou de um extremo a outro, em um vai e vem, até que o movimento do pêndulo vá parando no meio e vejo a situação de uma forma mais real.

Então, passei a achar o contrário. Que eu (e apenas eu) era a responsável por todas as minhas escolhas e por todas as consequências que tinham decorrido delas. E com essa visão, veio um peso enorme sobre mim. Passei a me sentir culpada por ter feito sofrer pessoas queridas na fase em que me achava vítima. E a culpa é um sentimento horrível. Diferente do arrependimento, que traz em si uma mudança de atitude, a culpa carrega uma passividade, como se ficássemos plantados no lugar do sofrimento e não fosse mais possível seguir em frente.

Comecei a chorar por escolhas feitas e que não podiam ser mudadas. E eu tinha sido a responsável por todas elas! (eu vejo muitas vezes isso colocado na internet, em frases e textos: assuma a responsabilidade por seus atos!!!).

Em vez disso trazer algo positivo para mim, fui afundando cada vez mais nesse pântano de sofrimento, culpa, tristeza, passividade. Veio a depressão e a vontade de morrer. Eu me sentia uma pessoa ruim, má mesmo. E sendo má (como eu me via), o que eu poderia trazer de bom para as pessoas que conviviam comigo?

Mais alguns meses de reflexões e reavaliações da minha vida amenizaram um pouco esse peso excessivo que eu carregava nas costas.

 

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Passei a perceber que, embora eu fosse responsável pelas minhas escolhas, nem sempre havia uma escolha. Alguns momentos e algumas decisões não permitiam que eu tivesse feito algo diferente. Eram estradas que dependiam das escolhas das outras pessoas que estavam à minha volta e que impactavam diretamente na minha vida.

Isso ameniza um pouco o sentimento de culpa e facilita sair da lama e voltar a caminhar em busca dos meus sonhos.

Aceitei, em alguns momentos, abrir mão dos meus desejos e dos meus objetivos por causa do amor que escolhi para dividir minha vida ou por causa dos meus filhos. São escolhas que a gente faz, nessa troca e entrega que envolve todos os relacionamentos.

Tenho tentado também localizar o mais rápido possível esse ponto de equilíbrio, o caminho do meio, a moderação. Isso pode ser usado em tudo na vida. Ainda não encontrei uma exceção. Talvez abraços? Gosto de abraços e talvez não haja um número limite.

O Budismo prega o Caminho do Meio e a moderação nas escolhas.

A Filosofia de Aristóteles também defende a ponderação das atitudes para que se alcance a felicidade. Qualquer extremo pode até gerar um prazer temporário, mas a felicidade (e a tranquilidade que ela traz) vem do equilíbrio. Devemos aprender a virtude e torná-la um hábito, para termos tranquilidade de alma.

Ainda tenho dificuldade nesse equilíbrio. Eu me sinto constantemente em uma corda bamba. E tenho que reencontrar a estabilidade a cada passo que dou, a cada vento que sopra. É algo dinâmico, difícil.

Mantenho a cabeça erguida e o olhar aonde quero chegar.

 

Corda Bamba

(austríaco Heinz Zak)

– Sílvia Souza

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10 Comments
  • Também tenho dificuldade em encontrar esse equilíbrio. Mas acredito que com calma e perseverança tudo será alcançado

    Beijos e até mais,
    Jayane Fereguetti
    https://avidaodesignetudomais.wordpress.com

  • Boa tarde Sílvia .

    Se libertar da culpa (necessito) que muitas vezes nem deveria
    ser chamada de CULPA , afinal todos erramos.

    Na verdade o que fazemos com
    os erros cometidos que conta realmente.
    Podemos nos martirizar ou usa-los a nosso favor , como experiencia
    de vida , lição , e principalmente como degrau para amadurecimento.
    Me identifiquei muito com essa postagem Sílvia. Acredito que todos estamos
    atrás desse equilíbrio.

  • M.Raydo disse:

    Orgulhe-se do que você é! E, pelo pouco que vejo, tem ótimas qualidades e oportunidades! Seja persistente na busca do aperfeiçoamento, sem deixar de perceber que você já é uma mulher maravilhosa, querida e no caminho certo! Relaxe e curta os maravilhosos finais de tarde! Estamos todos indo bem! 🙂

    • Sílvia Souza disse:

      Então… eu me orgulho, de verdade!
      Tenho meus altos e baixos, como todas as pessoas, eu acho.
      Mas estou encontrando meu equilíbrio… e isso traz uma paz imensa!

  • Carlos Moya disse:

    Voçe é uma boa pessoa. A tomada de decisões é difícil e acho que quase tudo o que eu tomei em minha vida contém um erro, tento manter um ponto de vista Taoista. Então eu aceito que às vezes estou errado um pouco mais, e por vezes um pouco menos. Mas sempre disposto a seguir enraizado na existência e aceitar que reina imperfeição em nossas vidas. ¿A alternativa seria a viver como um Stylite no topo de uma coluna? Um abraço

    • Carlos,
      Hoje não sei dizer o que sou… se sou uma boa pessoa ou uma pessoa incompatível com esse mundo em que vivo… Hoje é um dia em que ouso dizer que gostaria de morar isolada como um eremita… Tenho uma dificuldade muito grande de me relacionar da forma correta com as pessoas…
      Tenha um lindo dia!

  • Lari Reis disse:

    Oi, Silvia!
    Gosto muito de como você coloca cada questão aqui. Acho que você encontra, olha só, um equilíbrio bacana entre relatar o lado pessoal e abrir espaço para que as pessoas de fora se identifiquem com cada situação. A do post de hoje se encaixa para mim. Já estive no extremos e, às vezes, acabo voltando para algum. Aprender que nem sempre a gente poderia ter sido diferente realmente foi algo que me ajudou muito! Hoje, tento ter em mente que, por mais que outras pessoas possam ter mais facilidade em encontrar o equilíbrio, quando a coisa desanda, o desafio não é fácil para ninguém.
    Beijos.

  • ranchodoperegrino disse:

    Belo texto e muito rico. Adorei a citação Jean Paul Sartre. Adoro filosofia também

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