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Encontro

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Encontro

Elas não tinham combinado nada. Cada uma chegou em um momento.

A primeira chegou mau humorada e se sentou. Tinha muita coisa para fazer: supermercado, preparar o almoço para os filhos, comprar a encomenda para a irmã, colocar os documentos no correio para o pai, levar a mãe ao médico. Vestia-se de forma rígida, nunca ultrapassava os limites de velocidade, não bebia. Nunca desapontava a família nem os amigos. Cumprimentava as pessoas nos aniversários, comprava presentes, mesmo que no seu próprio aniversário ninguém se lembrasse dela.

Estava já impaciente e pronta para partir, quando a segunda chegou.

Tinha um aspecto triste. Andava curvada em si mesma, como se carregasse o peso do mundo em suas costas. Os olhos não tinham brilho. Ela se deixou cair na poltrona vizinha à da outra. Suspirava de tempos em tempos. Comentou sobre a sua solidão, como era incompreendida, o fato dos pais terem partido em viagem por 6 meses quando ela tinha apenas 4 anos. Queixava-se de não conseguir ganhar um salário adequado para sua formação. Ela tinha pedido o divórcio e estava sozinha e o marido já estava com outra mulher. O mundo era injusto demais ao seu olhar.

Por mais que as duas fossem completamente diferentes, houve uma empatia. E a primeira passou a achar que poderia, de alguma forma, proteger a segunda contra o resto do mundo. Houve até um momento de calma; mas era uma calma carregada de ressentimento e de tristezas.

Em meio a essa calma, a terceira chegou. Andava de forma elegante, com passos seguros e se sentou em outra poltrona com altivez. Olhou para as outras e sentiu-se incomodada com o aspecto de rendição perante o mundo que as duas tinham. Ela sempre tinha batalhado por seu espaço e acreditava que homens e mulheres (embora completamente diferentes) deviam ser tratados de forma igualitária. Ela não tolerava piadas machistas, descrédito nas suas capacidades, menção a qualquer tipo de inferioridade das mulheres. Ela tinha sempre sido uma das melhores alunas, passou na melhor Universidade, recomeçou mais de uma vez, nunca deixando de acreditar em si mesma.

Estava disposta a brigar e enfrentar as duas que olhavam para ela com depreciação; ela se sentia julgada sem que as outras sequer a conhecessem. Dentro desse clima tenso, a quarta chegou.

Ela era linda, bem vestida, maquiada com bom gosto e deixava um rastro de flores por onde passava. Ao se sentar, demonstrava uma sensualidade inata. Mas ela não ousava encarar ninguém. Aquela mulher linda, sensual, que transpirava desejo não conseguia sustentar um olhar. Não era capaz de emitir um som. Não tinha coragem de se manisfestar. A primeira e a segunda olharam para ela e, do nada, passaram a agredi-la, dizendo que era uma mulher que se entregava a paixões, uma vadia, sem vergonha. A terceira queria abraçá-la e defendê-la, afinal, as mulheres tinham o mesmo direito que os homens de amar e serem amadas. Mas sentiu-se intimidada pelas duas primeiras. Naquele momento, teve medo.

As duas primeiras se levantaram e ameaçaram tomar a quarta pelo braço, arrastá-la e trancá-la em casa, para que nunca mais pudesse seduzir pessoas que cruzassem seu caminho. O medo das outras duas parecia alimentá-las e elas cresciam e ficavam mais fortes.

Foi quando a terceira tomou coragem, segurou na mão da recém chegada e a olhou com ternura, mostrando em seu olhar que todas as pessoas podiam errar, amar, chorar, sofrer, se apaixonar, acreditar, sonhar, viver intensamente, gozar, rir, dançar. Não havia problema em se entregar a prazeres de tempos em tempos. A vida era curta e ela tinha o direito de soltar a sua voz também e ocupar o espaço que lhe era destinado, sem precisar se esconder em uma caixa, como se sua existência fosse um pecado.

Imediatamente, as duas primeiras se calaram.

Talvez, agora, possam coexistir de forma mais harmoniosa dentro de mim.

– Sílvia Souza

(24/07/2015)

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8 Comments
  • M.Raydo disse:

    Um belo encontro!
    Somos tantos de nós mesmos!
    Os que estão aí, todos os dias, como sempre.
    Os que controlamos.
    Os que ninguém imagina e os que desconhecemos.
    Sim! São tantas as possibilidades.
    Os do dia a dia e que trabalham exaustivamente, os que amam, choram, riem e se divertem.
    Somos muitos e queremos dar o melhor para o mundo!
    Adorei este texto e concordo!
    Que o melhor de nós vença e domine esta coisa toda, mas que sejam bons para nós mesmo! 🙂

  • “Dentro de mim há várias mulheres. E elas não se calam” (D.H Lawrence). Não pude deixar de lembrar esta frase ao ler teu texto. Adorei a forma como se expressou…

    Abraços!

  • Cláudio disse:

    Adorei a nova cara do site!
    Achei mais organizado ou sei lá, ficou lindo e parece ser bem mais fácil que o outro que era meio confuso. Estou também parado lá no blog meio sem vontade, cheio de ver ele com a mesma cara, rssss.
    Beijão Silvia e um ótimo ano a todos nós. 😉

    • Silvia Souza disse:

      Que saudades de ler um comentário seu!!!
      Obrigada por dar sua opinião.
      Eu não estou assim tão feliz com o resultado. Confesso que estou com vontade de fazer mais mudanças no visual, mas vai demorar um pouquinho, por falta de tempo e de dinheiro.
      Peço desculpas por eu também estar um pouco sumida e tenho dado poucas notícias. As coisas estão um pouco confusas na minha vida há quase 1 ano e parece que fica pior em vez de melhorar.
      Um excelente 2017!
      Um beijo grande, com carinho!

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