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Egocentrismo

Egocentrismo
Egocentrismo

Eu nasci mulher. E, como consequência, ficou definido que eu pertencia ao sexo frágil. Eu precisaria de um homem para cuidar de mim e me proteger nesse mundo machista.

Aos dois anos, eu já ajudava a lavar a louça do jantar.

Aprendi a passar roupa aos sete anos usando um ferro a brasa na fazenda.

Logo a seguir, aprendi a limpar a casa, preparar o almoço, molhar as plantas, varrer a calçada. Lavava a roupa, espremia e colocava no varal.

Fiz curso de pintura, de desenho, fiz música, tocava piano, flauta, aprendi tricô, crochê e a costurar. Aprendi algumas formas de bordado (fiz todas as lembrancinhas do nascimento do Gabriel). Fazia as barras das minhas calças. Cerzi roupas e meias.

Fiz caligrafia, inglês, conservatório, ballet, curso de manequim (aprendi a desfilar em passarela, para ajudar na postura).

Fui a melhor aluna da classe.

E aos poucos fui aprendendo que se eu quisesse algo do meu agrado ou no momento em que eu precisasse, tinha que fazer eu mesma.

Voltava a pé ou de ônibus da escola. Ia sozinha ao centro da cidade desde muito nova e resolvia tudo o que eu precisasse.

Mudei-me para São Paulo. Não havia um homem para me proteger.

Aprendi a dirigir. Ganhei um carro. Desde então, fui sempre eu a cuidar deles: mandar lavar, encher o tanque, levar para a revisão, trocar pneu, dar carga na bateria… tudo! Mesmo nesse mundo machista, em que as mulheres não são levadas muito a sério.

Passei a cuidar das contas, para que fossem pagas dentro das datas.

Cuidei da pintura do apartamento, da reforma, móveis, iluminação, mudança. Troquei todos os espelhos de luz do apartamento, sozinha, grávida de cinco meses.

Terminei minha tese de doutorado no final da gravidez do meu primeiro filho. Sempre fui a responsável por fazer supermercado.

O Gabriel nasceu. Minha mãe ficou comigo até que ele completasse 10 dias. O irmão da minha avó faleceu e ela se foi, voltando apenas para o batizado.

Eu acordava sozinha à noite, amamentava, cuidava dele durante o dia, lavava a roupa, preparava os sucos, chás, sopinhas, frutas, tudo no seu devido tempo.

A babá passou a me ajudar quando o Gabriel tinha seis meses.

E nenhuma das tarefas da casa foi assumida por outra pessoa.

E trabalhava fora.

O Guilherme veio. E eu cuidava dos dois.

Mudamos para a França e eu fazia tudo isso em um país estrangeiro. Levava a roupa para lavar numa lavanderia fora, fazia supermercado, cuidava do almoço, limpava a casa, pagava as contas na agência do correio, levava os meninos para brincarem no parquinho.

Ensinava o Gabriel a ler e escrever e o Guilherme a falar e pular.

Não tive empregada sempre. Não tive minha mãe comigo sempre. Não tenho com quem contar aqui. Nunca me ausentei das minhas tarefas por doença.

Onde esteve o meu lado frágil todos esses anos? 44 anos de vida… assumindo as coisas, à frente de tudo, noites em claro com filho doente, estudando, trabalhando…

Não tive homens me protegendo…

Estou sendo absolutamente egocêntrica em tudo isso.

Mas eu precisava escrever… para eu mesma ver a minha força!

Tenho montes de defeitos. Fiquei irritada e cansada em muitos desses eventos. Briguei. Tentei pedir ajuda, dividir tarefas.

Mas fiz. Eu fiz! Tudo! Sempre!

Enfrentei o mundo, enfrentei São Paulo… enfrentei a vida…

Estou um pouco cansada… Mas nunca poderei ser acusada de simplesmente ter ficado sentada esperando a vida passar…

– Sílvia Souza

(08-07-2014)

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4 Comments
  • Laynne Cris disse:

    Que orgulho enorme ler isso! Mulher de verdade é isso!

    Hoje, estava lendo e ouvia umas mulheres conversando na calçada aqui de casa (como falam alto) e reclamavam da vida e dos seus “homens”. Fiquei indignada com cada palavra – uma dizia a outra: Estou cansada do fulano, pra mim chega. Homem que quer ter mulher tem que ter dinheiro pra bancar. Chega desses pobres.
    E foi só piorando.

    Nunca em toda a minha vida dependi de alguém. Assim como você desde menina sempre tive que lutar para ter o que queria. Trabalhei, estudei e ainda estudo e trabalho. E minha maior alegria é poder sobreviver e ter minhas coisas por meus próprios esforços. Adoro a companhia de um homem, claro, mas não para me sustentar ou me dar presentes… etc.

    Há coisas que acho que nunca vou entender na vida! Mas, de uma coisa é certa… as pessoas tem o que merecem… e você sem dúvida merece toda a felicidade do mundo…

    Adoro você!

    • Silvia Souza disse:

      Ai, Laynne! Que lindo tudo o que você escreveu!
      Não sei se mereço toda a felicidade do mundo… talvez não… também errei MUITO!
      Mas achei que precisava escrever um pouco sobre minhas qualidades e tudo o que venci, porque acho que penso demais nas coisas que falhei ou errei…
      Obrigada por todo o carinho!
      Um super beijo!

  • Virginia Leite disse:

    DE frágil a mulher nada tem e isso está maIs do que provado pelas grandes e famosas mulheres que entraram para os Anais da História pelos seus feitos heroicos .

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