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Educação

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Quando eu era apenas uma estudante, cabia à escola fornecer o conhecimento. Os pais educavam. Os amigos se visitavam e falávamos ao telefone, às vezes por horas. O lazer exigia deslocamento, encontros, passeios. Eu podia andar tranquilamente pelas ruas, não tinha medo de ser assaltada. Muito nova, eu já era independente. Mas as informações demoravam a chegar. Filmes eram no cinema. Meus pais compraram o primeiro aparelho de video K7 quando eu tinha 14 anos. Eu nunca tinha visto um computador até entrar na faculdade. Ninguém tinha celular. O DNA parecia um conceito abstrato e distante demais. Tanto que, após minha primeira extração de DNA (no primeiro ano da faculdade), achei aquilo uma das coisas mais incríveis da minha vida. Se houvesse necessidade de fazer um trabalho para a escola, era preciso consultar enciclopédias e, quase certamente, visitar Bibliotecas.

Eu sempre fui uma boa aluna. Meus pais não tinham que se preocupar muito com o tipo de educação que eu recebia ou do quanto a escola era bem equipada. Importava apenas se os professores eram bons e bem formados, porque todo o conhecimento dependia deles.

Atualmente, como mãe, eu já não sei mais como agir, o que esperar, qual é o papel da escola, o meu e o do mundo. Ainda existe espaço para a educação formal como sempre existiu?

Meus filhos estão expostos a uma quantidade de informações que não consigo dimensionar. Eles falam de política, ciências, astronomia, fenômenos físicos, químicos, tecnologia, design, jogos eletrônicos, redes sociais, filmes… Eles são capazes de participar de qualquer conversa e opinar sobre qualquer assunto. E eles têm 14 e 11 anos! A escola contribui, mas os professores precisam inovar para mantê-los atentos. Eles sempre comentam sobre estratégias absolutamente inusitadas que os professores adotam como prêmio ou atividades extras. Eu e o pai temos o papel de educar, ensinar princípios e regras sociais; mas posso afirmar que aprendemos muito também e temos um papel muito mais próximo e de troca de conhecimento e de experiências do que nossos pais tinham conosco. Os amigos quase não se visitam e não falam ao telefone. Eles trocam mensagens ou se falam virtualmente, pelo FaceTime ou Skype ou qualquer coisa do gênero. Se questiono meu filho se não vai ligar para um amigo, ele diz que ninguém liga; que ele enviou um WhatsApp e está aguardando a resposta.

Eles falam sobre tudo, mas tenho dificuldade de soltá-los na rua sozinhos, porque tenho receio da violência. Eles opinam sobre as mais variadas coisas, mas não têm autonomia para resolver muitos problemas do cotidiano. Eles vivem conectados, assistem filmes online, buscam as informações no momento em que as perguntas surgem. Sabem o que é DNA, mutação, genes. Discutem a falta de água, a forma de despoluir os rios e como evitar o desperdício de água e de energia.

Recentemente, houve uma reunião na escola para discutir uma mudança curricular. A escola pretende inserir um pouco mais de atividades multidisciplinares, visando se adaptar às transformações aceleradas que vivemos hoje em dia.

Sabe o que mais me surpreendeu? O receio dos pais. Eu vejo como absolutamente necessário que as escolas tentem (apenas tentem, porque já se afastaram muito) falar a mesma linguagem dos alunos, estudem novas formas de ensino que permitam a criação de indivíduos melhores e mais adaptados para o mundo. Não entendo como a maioria dos pais não percebe isso. Não posso criar meus filhos pensando apenas no vestibular que virá. O mundo é muito diferente do que era há 30 anos. Nunca houve uma transformação tão rápida na história do homem.

Nosso olhar precisa mudar. Participar e aprender com essa nova geração, que precisa, mais do que tudo, se sentir acolhida para enfrentar os desafios que não param de surgir.

– Sílvia Souza

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12 Comments
  • A primeira vez que eu fui na praia eu também estava com uns 14 para 15 anos. Foi em Cananéia, Ilha comprida, e caipira que eu era, me esbanjei em tomar sol. Mas foi algo que para mim significou muito, desde o caminho de casa até a praia, quanto estar lá. Conheci uma garota e fiquei muito interessado em voltar a falar com ela, mas como? Nem telefone celular nós tínhamos. Nunca mais eu a vi. Ela estava com uma prima dela. Choveu muito em um dos dias. Foi uma grande aventura. Diferente de mim, o meu primeiro filho conheceu a praia com apenas 1 ano em Itajuba, SC. Hoje, quando eu vou viajar em família, é todo o tempo no celular, nem apreciam a viagem. Sem dúvida as coisas mudaram muito. Reter a atenção de nossos filhos tornou-se muitooo complicado.

  • mariel disse:

    É a mágica da mudança, eternamente ela, fazendo seus efeitos. Fico pasmo cada vez que atendo o celular. E no entanto, estamos sempre só no começo. Quanto aos filhos, não se preocupe: saberemos exatamente como errar.

  • M.Raydo disse:

    Pois é! Percebo tudo isso na geração atual, mas também entendo que falta contato humano! Em poucos anos terão que fazer aula de relacionamento de presença física! Contato olho no olho e conversa tete-a-tete!!!

  • Se tivesse uma filha grávida, não ficaria surpreso se ela estivesse em dúvida entre parto bluetooth ou wi-fi.

  • Jamile disse:

    Silvia, parabéns. Um grande desabafo, sobre um tema que precisa ser desabafado. Infelizmente não é difícil nos depararmos com quem insiste em manter a mente no passado, e bater na tecla das escolas manterem os mesmos métodos de ensino, mesmo com os jovens/crianças estando bem distantes de tal método. É visível que precisamos todos nos modernizar, já que o mundo modernizou e estamos perdendo a conexão com os pequenos.

    • Silvia Souza disse:

      Obrigada, Jamile, por ler e pelo seu comentário.
      Você colocou muito bem o meu sentimento, frente aos pais que estavam apenas preocupados com a aproximação de um vestibular.
      Mas não basta dar conteúdo.
      Eu me preocupo com os seres humanos que estamos formando.
      Beijo!

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