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E depois?

E depois?
E depois?

O nome estava na lista. A matrícula feita. A vida decidida. E agora? Em menos de 2 meses, as aulas começariam e eu não tinha ideia de onde poderia morar nessa cidade gigantesca e desconhecida. Tinha 17 anos e nenhum parente próximo que vivesse aqui e pudesse me ajudar.

Como minha ideia inicial era ir para Campinas, meus pais não pensaram em procurar um lugar em São Paulo para mim. Algumas amigas viriam de qualquer forma, mesmo que fosse para fazer cursinho. Mas não eu. A maioria das minhas amigas tinha alguma tia ou prima que morava aqui. Não eu. Cada uma delas estava acomodada, ao menos para o início das aulas. Não eu.

Eu teria aula em 2 lugares principais: na Faculdade de Medicina e na Cidade Universitária. Precisaria me deslocar de ônibus (as linhas de metrô eram ainda mais restritas naquela época); tinha que morar em algum lugar seguro e de fácil acesso e, acima de tudo, que fosse barato para ser viável.

Minha mãe passou a procurar indicações de pensionatos de freiras que aceitassem estudantes. Mas não havia muitos e os melhores não tinham vagas disponíveis. Depois de muito procurar, encontraram um pensionato em uma travessa da Caio Prado, próximo à Igreja Nossa Senhora da Consolação. Era o Centro de São Paulo. Em nossa primeira viagem para conhecer o lugar, o relógio da minha mãe foi furtado por um rapaz que passou correndo.

O metrô não era muito distante. A estação mais próxima era a República. Havia ônibus que pudesse me levar tanto à Faculdade quanto à Cidade Universitária.

O pensionato era todo trancado, com muitas grades e cadeados. Havia horários rígidos para estarmos de volta. Não podíamos fazer ligações telefônicas (apenas recebê-las) e não existiam celulares nem computadores pessoais. Eu dividia o quarto com outra moça, de Rio Claro. Não havia máquina de lavar roupas e eu precisava lavá-las à mão. Para usar a cozinha, eu precisava pagar à parte, por causa da geladeira e do gás, e não havia nenhum tipo de comida ou bebida lá. O banheiro era compartilhado entre todas.

Como a maioria das meninas morava em cidades próximas a São Paulo, elas costumavam ir embora para a casa dos pais nos finais de semana. Éramos poucas que permaneciam. Não dava para cozinhar lá, então, eu precisava sair para comer ou ficava com fome (o que acontecia com muita frequência, em especial nos finais de semana). Eu tinha muito medo de andar pelo Centro nos finais de semana, principalmente nos domingos, porque ficava muito deserto, com todas as lojas fechadas e ficava ocupado por indigentes e jovens infratores. Eu me assustava com tudo. Escutava histórias terríveis sobre São Paulo, sobre os perigos, a violência, os assaltos. Não estava habituada a tantos prédios, tantas pessoas, tantos carros… tudo era excessivo. Até mesmo a solidão era excessiva. Uma solidão repleta de pessoas.

Meus pais vieram, acompanharam-me no trote (que não foi tão terrível assim), ficaram alguns dias hospedados em um hotel próximo do pensionato e depois tiveram que partir.

E São Paulo estava gigantesca na minha frente, assombrando-me em todos os seus tons de cinza, com céu sem estrelas (que eu nem mesmo podia ver, porque não havia janelas no meu quarto), a poluição no horizonte, seu barulho constante ao qual acabamos nos acostumando e relevando, todo seu concreto cruel e frio.

Não sou do tipo que desiste dos objetivos, desde que os tenha. Sofro, mas sigo em busca dos meus sonhos. São Paulo me desafiou (e ainda desafia) cada dia que passei aqui (e ainda passo). Ainda travamos essa guerra silenciosa, em que a cidade tenta me expulsar e eu tento me convencer de que ela é meu lar. Talvez algum dia haja uma vencedora. E suponho que não serei eu. Mas não desisto da batalha, até que eu me esgote e parta, ou até que a velha gigante, com seus 462 anos e 12 milhões de habitantes, fira-me de morte.

– Sílvia Souza

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