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“Duas narrativas fantásticas” de Fiódor Dostoiévski

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“Duas narrativas fantásticas” de Fiódor Dostoiévski
“Duas narrativas fantásticas” de Fiódor Dostoiévski
Título original: Krôtkaia e Son smiechnôvo tchieloviêka

Primeira publicação: 1876 e 1877

Editora: Editora 34 (2003) – 123 páginas

Tradutor: Vadin Nikitin

ISBN13: 9788573262711

Sinopse: Designadas pelo próprio autor como “narrativas fantásticas”, as duas novelas aqui reunidas foram publicadas pela primeira vez nas páginas do ‘Diário de um escritor’, publicação mensal redigida por Dostoiévski entre 1876 e 1881. Em ‘A dócil’, um homem desesperado refaz, diante do cadáver da mulher, a história de seu relacionamento, tentando compreender passo a passo as razões que a levaram ao suicídio. Já em ‘O sonho de um homem ridículo’, o narrador, a ponto de acabar com a própria vida, adormece na poltrona diante do revólver carregado. Principia então um dos sonhos mais extraordinários da história da literatura, durante o qual Dostoiévski anuncia a possibilidade de uma vida utópica em outro planeta antes de seus habitantes serem contaminados pelo veneno da autoconsciência. Ambas as narrativas partilham da mesma “introspecção verrumante” que Boris Schnaiderman apontou no protagonista de ‘Memórias do subsolo’, livro com o qual estas obras mantêm grande afinidade. Tanto lá como aqui, o escritor russo submete a forma do monólogo a tal intensidade dramática, que o resultado ultrapassa as fronteiras daquilo que nos acostumamos a chamar de literatura.

 

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou a 30 de outubro de 1821, num hospital para indigentes onde seu pai trabalhava como médico. Em 1838, um ano depois da morta da mãe por tuberculose, ingressa na Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo. Ali aprofunda seu conhecimento das literaturas russa, francesa e outras. No ano seguinte, o pai é assassinado pelos servos de sua pequena propriedade rural.

Só e sem recursos, em 1844 Dostoiévski decide dar livre curso à sua vocação de escritor: abandona a carreira militar e escreve seu primeiro romance, Gente pobre, publicado dois anos mais tarde, com calorosa recepção pela crítica. Passa a frequentar círculos revolucionários de Petersburgo e em 1849 é preso e condenado à morte. No derradeiro minuto, tem a pena comutada para quatro anos de trabalhos forçados, seguidos por prestação de serviços como soldado na Sibéria – experiência que será retratada em Recordações da casa dos mortos, livro publicado em 1861, mesmo ano de Humilhados e ofendidos.

Em 1857 casa-se com Maria Dmitrievna e, três anos depois, volta a Petersburgo, onde funda, com o irmão Mikhail, a revista literária O tempo, fechada pela censura em 1863. Em 1864 lança outra revista, A Época, onde imprime a primeira parte de Memórias do subsolo. Nesse ano, perde a mulher e o irmão. Em 1866, publica Crime e castigo e conhece Anna Grigórievna, estenógrafa que o ajuda a terminar o livro Um jogador, e será sua companheira até o fim da vida. Em 1867, o casal, acossado por dívidas, embarca para a Europa, fugindo dos credores. Nesse período, ele escreve O idiota (1868) e O eterno marido (1870). De volta a Petersburgo, publica Os demônios (1871), O adolescente (1875) e inicia a edição do Diário de um escritor (1873-1881).

Em 1878, após a morte do filho Aleksiêi, de três anos, começa a escrever Os irmãos Karamázov, que será publicado em fins de 1880. Reconhecido pela crítica e por milhares de leitores como um dos maiores autores russos de todos os tempos, Dostoiévski morre em 28 de janeiro de 1881, deixando vários projetos inconclusos, entre eles a continuação de Os irmãos Karamázov, talvez sua obra mais ambiciosa.

 

Meu primeiro contato com a obra de Dostoiévski foi através de Crime e castigo. Eu gostei muito do livro, mas achei que sua leitura era suficiente como amostra da escrita deste autor russo. Foi então que eu ganhei dos meus filhos o livro Os irmãos Karamázov como um presente de Dia das Mães. Como os volumes eram muito extensos, acabei postergando a leitura. Até que chegou o dia em que iniciei e me apaixonei perdidamente por Dostoiévski. A história é de uma beleza única e indescritível em toda a sua complexidade. Depois dele, coloquei na minha lista de leitura todos os livros do escritor. E a cada nova leitura, minha admiração por ele apenas aumenta.

Apesar de ele ter vivido no Século XIX, sua obra é absolutamente atual, porque trata muito mais sobre o indivíduo, suas dúvidas e reflexões, do que sobre os costumes de uma geração. E vejo que estas questões humanas continuam exatamente as mesmas.

Neste livro, Duas narrativas fantásticas: A Dócil e O Sonho de Um Homem Ridículo, deparamo-nos com duas breves histórias, as duas como monólogos.

Em A Dócil, a história é narrada por um homem que possuía uma loja de penhores. Uma jovem moça ia sempre até ele para penhorar cada um dos objetos que possuía para colocar anúncios no jornal em procura de emprego. Ela vivia com algumas tias que a tratavam muito mal e ela buscava desesperadamente uma outra vida. O homem se apieda dela e resolve pedi-la em casamento, imaginando que, com essa ação, estaria ajudando a jovem. Mas ele era muito mais velho e cheio das manias de alguém que vivia sozinho; recusava-se às demonstrações de afeto, evitando, inclusive, aqueles que viessem da jovem para ele. Todas as reflexões que ele faz desse relacionamento e de suas próprias atitudes para com ela acontecem enquanto ele vela o corpo da jovem após ela se suicidar.

… Pois enquanto ela ainda está aqui – tudo bem: me aproximo e olho a cada instante; só que amanhã vão levar embora e – como é que eu vou ficar sozinho? Ela agora está na sala sobre a mesa, juntaram duas mesas de jogo, e o caixão vai se amanhã, branco, um gros de Naples branco, e, aliás, nem se trata disso… Eu não paro de andar e querer esclarecer tudo para mim.

Em O sonho de um homem ridículo, um homem comum, com algum ganho, tem um sonho absolutamente inesperado em uma noite em que ele consegue adormecer sentado à mesa de sua casa. Normalmente, ele tinha muita dificuldade de dormir e aquele sonho veio como uma visão para que ele mudasse sua vida.

Eu sou um homem ridículo. Agora eles me chamam de louco.

(…) Não quero e não posso acreditar que o mal seja o estado normal dos homens. (…) Um sonho? o que é um sonho? E a nossa vida não é um sonho? (…) O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal, só isso, não é preciso nem mais nem menos: imediatamente você vai descobrir o modo de se acertar.

 

 

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3 Comments
  • Carlos disse:

    Olá Silvia, eu acho queDostoievxki é o romancista íntima é dos diálogos internos e profunda reflexão e Tolstoi mais social e desenha um retrato de costumes. Eu não li essas duas histórias, mas seu comentário me despertou novamente o apetite para a literatura russa. Um abraço.

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Carlos!
      Como você está?
      De Tolstoi, li apenas “Anna Karienina”. Gostei muito. Mas definitivamente gosto mais do tipo de escrita de Dostoiévski. Gosto de suas reflexões e eu o tenho como um dos maiores escritores de todos os tempos. Não me canso de ler sua obra.
      Abraço!

  • […] Comentário sobre livros: “Duas narrativas fantásticas” de Fiódor Dostoiévski […]

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