Now reading

Divagações

Divagações
Divagações

Sei que não foi futilidade. Eu precisava disso. Não fui consumista. Ou fui? Tem sido tão difícil avaliar as coisas agora. Meus parâmetros mudaram. De repente, confronto-me com essa realidade que estava distante, quase inexistente, e que agora surge explicitamente na minha frente todos os dias.

Eu realmente precisava disso. Comprei porque era necessário. Não fui fútil e consumista. Tenho certeza. Mas será que foi caro demais? Eu poderia ter escolhido algo mais barato? Gastei 100 dólares. Ele não tem essa quantia por mês. Como pode haver tanta desigualdade?

Tenho me estranhado com estes pensamentos. Não sou comunista. Nunca fui reacionária. E sempre acreditei que o esforço e o trabalho eram capazes de destacar uma pessoa. Afinal, eu sempre batalhei. Estudei. Dou um duro danado. Sou dedicada. Tenho meu dinheiro porque ganhei com meu esforço. E posso comprar as coisas de que preciso. Não tenho do que me culpar, certo? Acho que posso ter minha paz de novo.

Mas não há trabalho onde ele mora. E aí? As oportunidades não são iguais. Não deveriam ser? Porque algumas pessoas têm que possuir muito mais do que precisam e outras não conseguem comer mais do que uma vez ao dia? Quando ele me contou isso, fiquei chocada; meu estômago embrulhou e eu quase não me aguentei. Uma única refeição ao dia! E ele ainda treina! Sonha em ser jogador de futebol! Como? Fazendo uma única refeição ao dia?

Quando como um chocolate, percebo que me questiono: será que ele já provou um chocolate? Quantas coisas ele deve ver na televisão e com as quais não pode ousar sonhar? Um pão quentinho no café da manhã… mas ele não toma café da manhã. Ele come antes de dormir, para que consiga dormir. O treino de futebol faz de manhã, logo que acorda, em jejum.

Estou aqui neste trem, acabei de gastar 100 dólares nessa minha compra, tenho meu celular, um casaco de frio, estou cercada de pessoas preocupadas com seus problemas tão sérios… este mundo egoísta onde cada pessoa não consegue se colocar na pele do outro. Sempre “eu”. Será que elas estão erradas? Ou a errada sou eu? Depois desse confronto explícito com a realidade, julgo que todos precisam entender a desigualdade que existe à nossa volta e que fazemos questão de não ver.

Não é demais, é? A pessoa ter o direito de comer? E de sonhar?

Ele não tem o direito de sonhar! E essa realidade brutal destrói minha alma.

Sei que minha vida continua. Sei que terei que descer na próxima estação. Sei que chegarei a meu apartamento vazio e silencioso e não haverá ninguém me esperando. Irei até a cozinha para preparar um jantar e ficarei desanimada de comer sozinha e não ter com quem conversar. Tomarei um banho quente e dormirei em uma cama macia depois de tomar um ansiolítico, porque a insônia me acompanha. E amanhã acordarei cedo para mais um dia de trabalho muito parecido com o que tive hoje, em um lugar onde ninguém se fala, porque todos têm medo de perder o emprego.

Ele estará lá… naquele país distante… naquele continente distante… fazendo seus bicos, comendo uma vez ao dia, jogando seu futebol na esperança de ser profissional, sempre na companhia dos irmãos e primos. Estará lá com seu sorriso e sua frase de que tudo vai ficar bem e de que eu não preciso me preocupar.

Minha estação!

 

– Sílvia Souza

Written by

2 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Olá Silvia, Grande história. Eu acho que é um bom exemplo do que todos nós pensamos às vezes. Eu não sei, quando refletimos, nós temos todas as chaves e prejudicar a felicidade dos outros como em nossa civilização. Algumas pessoas acumulam vacas para garantir o dote das mulheres. Eu acho que o costume é o resultado de sua experiência de vida. Mudar a cultura tradicional, fazemos uma boa ou condenar essas pessoas à miséria? Talvez isso é o pior aspecto da televisão que transmitia uma realidade distorcida em ambas as direções. Um beijo.

    • Olá, Carlos!
      Eu penso a respeito… sofro com tudo isso… mas sei que não existem soluções simples e fáceis. É tudo muito complexo, porque envolve políticas, governos, costumes, culturas, religiões e daí em diante. Não é apenas uma questão de dinheiro… é muito mais complexo.
      Mas eu sinto que preciso fazer algo… tenho cada vez mais frequente em mim esse desconforto…
      Obrigada por sempre compartilhar suas opiniões aqui comigo…
      Beijo!

Instagram
  • #jorgeluisborges #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #miguelestevescardoso #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #cesarecantú #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #thubtenchodron #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #albertcamus #citações #reflexõesdesilviasouza