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Desafio para um texto feliz

Desafio para um texto feliz
Desafio para um texto feliz

Introdução: O Marcelo do Blog Patriamarga me desafiou a escrever “o texto mais feliz” da minha vida. É um desafio de verdade. Vamos ver como me saio…

 

Naquele ano, as férias escolares precisaram chegar para que pudesse viajar com os avós. Era a primeira vez que isso acontecia. Antes dos 6 anos, era livre; tinha todo o tempo do mundo para si mesma; ficava com a avó sempre que quisesse. Aproveitava aquele carinho tão diverso do carinho dos pais. Só que as coisas eram diferentes agora.

A mala estava pronta e ela estava impaciente. Ela se despediu dos pais e das irmãs, que ainda eram pequenas para irem também.

Entrou no carro eufórica, mas sabendo que teria que esperar as 3 horas intermináveis até que chegassem.

Era uma longa estrada até chegarem ao rio. Esse tinha que ser atravessado em uma balsa. Sempre que paravam o carro para esperar a balsa se aproximar, a avó servia o lanche: um ovo cozido. Até aquele ovo, algo tão simples, tinha um sabor diferente quando estava ali, às margens do rio.

A balsa se aproximava e os carros entravam. A balsa deslizava lentamente até a outra margem. De lá, seguiam viagem por um longo caminho de terra, já em outro estado do país; mas ela não sabia bem o que isso significava.

Depois de um tempo, já percebia pequenas coisas que lhe eram familiar: casas, árvores, porteiras.

Já estavam próximos da entrada da fazenda.

O avô parava o carro embaixo de uma árvore grande que ficava no meio do pátio entre as casas. Ela descia rápido e ia cumprimentar a Sra. Mariana, que cuidava da casa, das galinhas, dos porcos, do pomar, da horta e de um monte de outras coisas.

Ela entrava naquela antiga casa de madeira, corria para seu quarto e olhava sob as camas para ver se havia alguma cobra escondida. Uma vez, quando ainda era pequena, com 3 anos, encontrou uma cobra que estava perto da velha árvore.

Saiu apressada da casa e foi ver a Sra. Mariana terminar de preparar os queijos. Adorava olhar todo o processo. Ela escorria aquela massa que tinha se formado do leite, vários galões de leite. Saía um líquido esbranquiçado, que diziam que era o soro. Depois a Sra. Mariana colocava aquela massa em latas furadas, que já tinham servido para guardar sorvetes no congelador. E essas latas tinham que ficar em uma tábua por uns dias, cobertas por panos.

Ela já tinha feito sua programação para os dias da fazenda. Sabia que a avó faria pães e assaria pequenos pãezinhos em formato de passarinhos, com feijões no lugar dos olhos. E ela gostava de comer as asas que ficavam bem torradinhas, porque a avó fazia pequenos cortes na massa com uma tesoura.

Ela também iria se sentar com a avó para cavar pequenos poços feitos com latas. Encheriam de água e fariam a manivela para puxar a água com pequenos gravetos que encontravam ali perto da casa.

Ela iria ao balanço que o tio tinha feito para ela. E depois iria pescar com ele na represa. Ele sempre fazia as varas de pescar com bambu e os dois percorriam o brejo à procura de minhocas, que colocavam em uma lata para depois usarem no anzol.

Logo cedo, ao acordar, adorava ajudar a avó a debulhar o milho para as galinhas. Ficavam todas em volta, com seus pintinhos. Ela adorava pegar os pintinhos e fazer carinho, mas a galinha mãe não podia estar muito perto.

Depois o Seu Manoel trazia os cavalos e o avô lhe emprestava o seu, que era sempre o cavalo mais manso e mais bem domesticado da fazenda. Ela era a única mulher (ou quase uma mulher) que saía a cavalo pela fazenda com o avô, o tio e os outros peões. O avô explicava sobre os tipos de capim, sobre o gado, sobre os carneiros. Depois, ele gostava de contar sobre sua vida. O avô dela tinha estudado apenas o suficiente para aprender a ler e escrever. Eles não tinham dinheiro. Começara a trabalhar muito novo. Tinha sido vendedor, tocava em uma banda um saxofone que aprendera sozinho, tinha sido alfaiate, montado um bar (no qual era a avó que cozinhava e preparava o sorvete). Ela olhava maravilhada para aquela história de vida que parecia saída das histórias dos livros.

Cavalgavam a manhã toda, até ficar com dor no bumbum. Mas nem isso podia mantê-la quieta quando estava na fazenda. Percorria o pomar, inventando personagens imaginários, que eram sua companhia, já que a irmã e a prima não estavam lá com ela.

Quando voltava para casa, no final da tarde, encontrava a avó passando roupa com o ferro a brasa, coisa que ela só iria encontrar novamente em museus. A comida já estava pronta no fogão a lenha e a avó pedia para que ela fosse tomar banho.

A própria avó levava o balde de água quente para encher o chuveiro tiradentes. Ela não gostava muito da hora do banho, porque as pererecas sempre apareciam e ficavam pulando pelo banheiro. Mas ela estava sempre tão suja de terra, que não tinha jeito, precisava se lavar.

A noite já alta no céu, depois da janta, os lampiões acesos (com muitos insetos voando em volta), ela saía com o avô e ficava perto da cerca, escutando os sons da fazenda (bois, grilos, sapos). A lua estava crescente no céu e não havia uma única nuvem. O que via apenas eram bilhões de estrelas, estrelas de felicidade que preenchiam seu coração.

Hoje, ela tem saudades!

– Sílvia Souza

(31-08-2015)

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19 Comments
  • palhao disse:

    Que história mais bonita!

    Você é a menina, Sílvia? 😀

  • M.Raydo disse:

    Tá lá, desafio aceito e feito! Excelente! Adorei estas lembranças tão queridas. Tive memórias passadas, em alguns momentos da minha vida, que foram ótimos assim! Muito bom!
    Parabéns! 😉

  • Parabéns Sílvia, lembrei muito da minha infância nas suas palavras. Sempre leio os seus posts, confesso que este me surpreendeu pela alegria e pela simplicidade, afinal é melhor ser feliz do que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe.

  • Chronosfer disse:

    Época que sempre nos deixa belas lembranças. Bonito texto. Meu abraço.

  • aurokam disse:

    Que inveja desta menininha…

    • Silvia Souza disse:

      Como foi sua infância?
      A minha teve esses momentos muito especiais e muito felizes!
      Atualmente, tenho saudades desses momentos e saudades dos meus avós que já não estão mais aqui…

      • aurokam disse:

        Dentre seus textos que pude ler, esse é meu favorito. Nossa memória não é confiável. Acredito que as lembranças de infância tendem a ser felizes. Os maus momentos são, de alguma forma, suprimidos. Tive a sorte de nascer em um família grande, cheia de primos e bem estruturada. Minhas lembranças mais felizes são as brincadeiras em grupo, uma pré-escola da vida que nenhum professor ensina. Ao lembrar da infância, meu sentimento é mais de nostalgia que propriamente saudade. Sinto falta de uma época mais simples, de interações mais reais e, por que não, de mais ingenuidade.

        • Silvia Souza disse:

          Você disse tudo!
          Sobre a memória, percebo que o passado muda. Nossas lembranças mudam os fatos; guardamos as coisas boas, apagamos outras (ainda bem que seja assim).
          Eu acho que eu também sinto falta dessas interações reais (ou que eu via como reais).
          Vir para São Paulo foi muito difícil. Ainda sofro aqui.
          Se quiser, me escreva por e-mail.
          Você tem meus contatos, não tem?

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