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Depressão

Como a minha avó
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Tenho uma amiga que tem depressão. Não é que ela seja triste. Não. Se você não a conhece e olha para ela, você até vai achar que ela é alegre. Ela sorri bastante, diverte-se com as outras pessoas; talvez você possa notar algo no olhar… às vezes… se prestar atenção. Mas quase ninguém presta atenção no outro de verdade, não é?

A depressão não é tristeza. Nem infelicidade. É uma dificuldade de lidar com a vida, com os problemas, com o mundo.

Minha amiga demora para sair da cama. Não é preguiça. Nem sono. Ela diz que faltam coragem e força para começar a batalha de mais um dia. Quando finalmente ela se levanta, ela fica quieta por muito tempo, preparando seu café da manhã com calma. Toma um café bem forte para ajudar a dar energia e, em seguida, toma seu remédio. Ela detesta tomar remédios, mas não deixou de tomar o antidepressivo um único dia. Ela tem medo de esquecer. Tem medo que sua força de viver acabe se perdendo junto com o remédio esquecido.

Ela me contou que faz as coisas por obrigação. Ainda bem que ela tem um enorme senso de responsabilidade. Ela se arruma para trabalhar, escolhe uma roupa bonita, sapatos, bijuteria, perfume. Não quer que ninguém note que ela não tem a menor vontade de se arrumar, de se enfeitar. Tem vergonha de admitir que existem dias em que ela não gostaria de sair da cama, nem mesmo para tomar um banho. Ela se obriga. Porque tem medo de um dia ceder a essa preguiça e nunca mais conseguir criar a coragem necessária para enfrentar a vida.

Ela trabalha, ganha seu dinheiro, faz ginástica. Tudo porque se obriga. Mas o que ela realmente gosta é de ficar na cama, dormindo, lendo ou vendo TV. Ela costumava gostar de fazer compras, de sair, ver pessoas, ir ao cinema, almoçar em um bom restaurante. Mas quando a depressão piora, ela não tem prazer em nenhuma dessas coisas; é como se ela vivesse em um mundo particular desprovido de motivação, de excitação, de prazer.

Eu fico atenta a ela. Sabe como eu sei quando ela está pior e mais precisando de mim? Quando ela some. Ela deixa de responder minhas mensagens. Nunca encontra tempo para conversar. Diz que está sempre ocupada. Não quer falar ao telefone. Geralmente nem atende ao telefone.

Se eu não a conhecesse tão bem, talvez eu me ofendesse com esses distanciamentos, com o certo desprezo com que ela me trata. Mas eu sei que não é por mal. Sei que é o momento em que mais ela quer um colo, um abraço amigo, amparo, carinho e um ombro para se apoiar.

Converso. Escuto. Dou um chacoalhão quando acho necessário. Sei que ela precisa de mim.

Tenho medo por ela. Porque a depressão faz com que a pessoa perca a perspectiva de um futuro melhor; tudo parece sem saída. E sei que pode haver um momento em que esse sentimento pode se intensificar e ela resolva acabar com tudo. Eu sei que os problemas não duram a eternidade. Assim como as tempestades são passageiras, as dificuldades também passam e voltamos a ver o sol até a próxima tempestade chegar. O que falta para ela é a proteção quando a tempestade vem. Ela fica desabrigada, em meio a relâmpagos e trovões. E isso assusta qualquer um. O abrigo que a maioria das pessoas é capaz de criar, ela não consegue. Nesses momentos ela precisa de mim.

Porque eu preciso dela em tantos outros momentos. Ela é uma pessoa maravilhosa. A depressão não faz com que ela seja menos especial. Apenas faz com que ela seja mais vulnerável às intempéries.

E, nesses momentos, tentarei estar sempre por perto.

– Sílvia Souza

 

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10 Comments
  • Mariel F. Fernandes disse:

    Amigas como você nos tiram de qualquer fria

  • claudio kambami disse:

    Mas o dia amanheceu lindo. Não vi pela janela, não pude hoje chegar até ela, mas sei que está ensolarado e sem trovões. Diga a sua amiga que tudo passa, a dor, a sensação do desconforto, a falta desse ombro real, mas lembre-a sempre e isso é mais que importante, o espírito sente, sustenta e apoia, nuca abandona, pois ele ama intensamente a todos que por qualquer motivo seja se sentem. Eu estive, estou e estarei sempre aqui, seja nas tempestades, nas guerras e nos conflitos da personalidade. Eu sempre me faço presente e estendo minhas mãos de verdade. Beijão! <3

  • Carlos Moya disse:

    Sabe vostede que eu teño unha teoría loca e sin comprovare? A depressao esquecese. A mais dos medicamentos. Ajudando a outras pessoas mais necesitadas. Os depresivos som muito xenrosos embora ten um desequilivrio bioquímico. Non? Um beijo.

    • Carlos,
      Eu acho que você tem razão… parcialmente…
      Eu me sinto muito melhor quando foco minha atenção e minhas energias em ajudar outras pessoas, o que faço muito por causa da minha profissão.
      Mas quando estou só, a tristeza e a melancolia costumam ocupar muito espaço em mim. E eu me afeto muito pelas desigualdades, pelos problemas de outras pessoas, pelos sofrimentos alheios… e nesses momentos, sinto-me ainda pior por achar que não tenho direito a sentir tristeza sendo uma pessoa tão abençoada.
      Vai entender…

      • Carlos Moya disse:

        Acho que as pessoas de vida abençoada são os mais generosos com os outros. Embora se deva considerar que a cada dia que você merece alguns minutos para se divertir, ler, ouvir música ou realizar uma atividade que você goste. É claro que não podemos resolver todos os problemas do mundo, temos o suficiente para ajudar os nossos filhos, parentes, amigos, vizinhos e colaborar com as ONG. Embora compreendo que a solidão pesa e por vezes torna-se insuportável também nos gloriamos com tudo realizado. Não, se você ainda refletida no jornal todas as coisas boas que lhe acontecem, re-ler o escrito e pense que essas boas ações vai dar frutos. Rezo muitas vezes para que você encontre a pessoa boa que merece compartilhar sua vida. Um beijo.

        • Olá, Carlos!
          Obrigada por suas palavras…
          Muitas vezes, me pego pensando se já não tive uma boa pessoa com quem compartilhei minha vida… Fui casada por 15 anos com um homem que me tratava bem (à sua maneira) e com quem tive 2 filhos maravilhosos. Optei pelo divórcio por uma decisão pessoal porque não estava satisfeita e achei que precisava trilhar meu caminho sozinha (não conseguíamos mais nos comunicar). Mas será que mereço encontrar outra pessoa boa na minha vida?
          Creio que eu deva me acostumar com a solidão…
          Tenho algumas dificuldades pessoais… enfrento muitos medos e isso me aprisiona… acho que por conta disso, desses medos, é que sonho em me mudar para uma pequena cidade, tranquila e segura, se possível à beira mar…
          E talvez seja a solidão que vá me acompanhar quando essa mudança puder se concretizar.
          Um beijo, com carinho…

          • Carlos Moya disse:

            Eu entendo que você deseja mover-se para uma pequena cidade. Eu vivo em uma das menores capitais e algumas semanas por ano em uma vila na costa. Então, eu estou acostumado a um ambiente seguro e eu fico muito nervoso com a ocupação de Madrid, apenas a hora de ir para o aeroporto e pegar a minha filha quando viajar ou para trazer e levar minha mãe para casa. Esse sonho de vocês se tornará realidade um dia. Temos ainda pendentes algumas alternativas para a residência na Europa. Não é verdade? Um beijo.

          • Acho que é esse meu sonho que ainda me mantém respirando…

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