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Conto “Uma história de tanto amor” de Clarice Lispector

Conto “Uma história de tanto amor” de Clarice Lispector
Conto “Uma história de tanto amor” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Uma história de tanto amor”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este livro, “Felicidade Clandestina”, está repleto de memórias e muitas histórias sobre a infância. Neste conto, Clarice Lispector nos fala sobre uma menina que tinha como animais de estimação duas galinhas, Pedrina e Petronilha.

Imagino que Clarice tinha algum tipo de admiração pelas galinhas. Muitos de seus contos falam sobre galinhas, pintos ou ovos. E um de seus livros infantis, A vida íntima de Laura, também conta sobre uma galinha. Talvez seja o animal mais recorrente em suas histórias.

No conto, a menina cuida das galinhas como se fossem pessoas, ou filhos; tratando de problemas imaginários do fígado, dava às galinhas remédios inventados por uma tia.

Mas eis que um dia em que a menina vai passar o domingo longe de casa, quando ela retorna, descobre que a galinha Petronilha foi cozida e servida no almoço. Ela ficou bastante brava e “passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi.”

(…) O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe.

— Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.

A outra galinha, por um excesso de cuidado da menina, acabou morrendo de tanto amor, de tanto ser agasalhada e esquentada nos antigos fogões a lenha feitos de tijolos.

Depois, maiorzinha, a menina teve outra galinha como animal de estimação, chamada Eponina.

O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha.

Em vários dos contos deste livro, eu acabei me lembrando da minha infância. Cresci em fazendas, entre animais diversos e minha avó costumava matar uma galinha para preparar para os almoços de domingo. Eu sei que para muitas pessoas isso parece algo cruel; mas eu sempre vi com naturalidade, porque cresci assim.

O ser humano teve a evolução de sua capacidade cerebral em parte por causa da grande variedade de alimentos, pelo fato de comer vegetais e animais. E assim nos desenvolvemos.

Não discuto as preferências alimentares de cada pessoa. Mas eu vim de uma família que não tinha muitos recursos, descendentes de imigrantes europeus pobres e que quase não tinham o que comer. Uma regra da minha casa sempre foi a de evitar o desperdício. Quando minha avó matava a galinha, ela prepara praticamente tudo, desde os pequenos ovinhos, a moela, fígado, até o cérebro (que chamávamos de miolo e disputávamos para ver quem iria comer).

Recentemente, escutei um trecho de uma palestra da Monja Coen e perguntaram para ela se ela comia carne. E ela disse que sim. Ela deu risada e falou que imaginava que o rapaz fosse achar que ela falaria que não; mas ela disse que escolher não comer algo é um luxo que algumas pessoas podem se dar. Ela falou que muitas pessoas passam fome e comem qualquer coisa que consigam. E que o mais importante é pensar no nosso papel evitando e desperdício de alimentos e dar a quem precisa.

E eu concordei totalmente com ela. Tenho preocupação com relação aos maus tratos dos animais. E tenho o privilégio de escolher o que comer. Mas entendo a menina do conto que aceitou de pronto o fato de comer sua galinha de estimação.

 

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2 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Gostei muito de vc falar sobre esse lance de comer bicho e de como existe essa pressão de não come los.
    E nunca imaginária que a Monja Coen comece bichos rs.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Fiquei surpresa também.
      E gostei da colocação dela do fato de que, quando as pessoas podem escolher deixar de comer algo, significa que elas não passam fome e que têm condições de fazer escolhas. Foi algo interessante.
      Temos uma grande tendência de nos esquecer que um número enorme de pessoas passa fome no mundo.
      Isso me entristece enormemente.
      Minhas avós não desperdiçavam nada. Tudo era aproveitado de alguma forma. Os ensinamentos das pessoas que não viveram na fartura…

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