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Conto “Silêncio” de Clarice Lispector

Conto “Silêncio” de Clarice Lispector
Conto “Silêncio” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Silêncio”, do livro “Onde estivestes de noite”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Neste conto, Clarice nos fala sobre o silêncio. Ela tenta descrevê-lo, contá-lo, compará-lo a paisagens, dizer o que sentimos ao vivenciá-lo.

Mas aqui, antes mesmo de transcrever alguns trechos do conto e de falar mais sobre ele, tenho que dizer que fiquei um pouco frustrada. Sou uma fã incondicional dos escritos de Clarice. Não há dúvidas quanto a isso. Entretanto, não entrei no conto com a minha alma. Ele não me cativou; não me conquistou. Sabe quando vem aquela sensação de: é um conto bonito, mas eu esperava mais da escritora. É uma heresia?

Um trecho do início:

É tão vasto o silêncio da noite da montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo.

Quando ela cita Berna, fiquei imaginando se o conto fora escrito enquanto ela morava na Suíça. Ou, talvez, sua intenção fosse de que o conto conseguisse mostrar sua solidão na época em que ela morava lá e achava a cidade muito quieta e organizada; quando lhe faltava a bagunça barulhenta do Rio de Janeiro daquela metade do Século XX.

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes mais distantes.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre.

Fico pensando o que ela sentia. Qual era sua tristeza em viver na bela cidade suíça. Mas acho que, na maioria dos casos, as pessoas não se adaptam aos lugares porque elas estão em desarmonia interna. Se não estivermos bem conosco, não estaremos bem em lugar algum. Nunca. É claro que é possível (e provável) preferir um lugar a outro. Mas acabamos associando um lugar que amamos (ou odiamos) a como estávamos nos sentindo naquele momento, se havia paz e alegria ou turbulência e sofrimento.

E o silêncio pode incomodar… mas, na minha opinião, na maioria das vezes, ele é maravilhoso.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

 

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