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Conto “Restos do carnaval” de Clarice Lispector

Conto “Restos do carnaval” de Clarice Lispector
Conto “Restos do carnaval” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Restos do carnaval”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este é outro conto absolutamente delicioso de se ler. E acredito que ele também remeta à infância da escritora, na época em que morava no Recife quando sua mãe estava doente.

Ela narra a lembrança dos carnavais, quando ainda era uma menina. Ela gostava do Carnaval e apreciava ver as pessoas fantasiadas que passavam por perto, enquanto ela permanecia do lado de fora da casa onde morava até tarde da noite.

Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete.

Ela tinha medo das pessoas que passavam usando máscaras, mas, ao mesmo tempo, tinha um prazer enorme em vê-las. E ela sempre pedia à sua irmã para enrolar seus cabelos lisos, para que ficassem frisados para a festa de Carnaval, além de se permitir passar um batom vermelho nos lábios.

O Carnaval permite a libertação daquele eu escondido, que fica guardado durante o ano todo. Talvez isso não faça mais sentido hoje em dia, porque as pessoas não se escondem, não se guardam; talvez hoje em dia haja um prazer excessivo em se mostrar além do que se deveria, em chocar até o extremo, como se isso diferenciasse mais cada um dos indivíduos. Mas naquela época, o Carnaval ainda representava esse momento de libertação, uma libertação discreta nos moldes de hoje, mas ainda assim uma libertação.

Voltando ao conto, houve aquele ano, em que a escritora tinha seus 8 anos, e a mãe de uma de suas amigas fez uma fantasia de rosa na filha, usando papel crepom. Mas como sobrou papel, fez na escritora também uma fantasia, dentro daquilo que era possível. E foi a glória para ela! A alegria extrema de poder vestir uma fantasia no Carnaval!

Mas parece que existem momentos em nossas vidas nos quais a felicidade não nos é permitida. Parece que estamos infringindo uma lei universal e precisamos voltar à realidade da rotina diária, como se tivéssemos usurpado algo que não nos pertencesse. E foi assim naquele ano. A menina, em toda sua felicidade, vestindo sua fantasia, foi chamada, de repente, para ir até uma farmácia comprar um medicamento para sua mãe, que estava piorando em sua doença.

Ela foi, vestindo a fantasia; correu para atender à solicitação e trouxe o remédio.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

O conto é absolutamente lindo e delicado. Trouxe à minha memória, lembranças da minha própria infância.

 

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2 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Este conto tem uma melancolia na exata medida.
    Também gostei muito dele. E é terrível perceber como a alegria é uma névoa tênue.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Deste livro “Felicidade Clandestina”, estou gostando muito!

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