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Conto “Onde estivestes de noite” de Clarice Lispector

Conto “Onde estivestes de noite” de Clarice Lispector
Conto “Onde estivestes de noite” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Onde estivestes de noite”, do livro de mesmo nome, “Onde estivestes de noite”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este conto é confuso como um sonho. E neste sonho incoerente, entram aspectos religiosos e alguns sobre a própria vida da escritora.

A noite era uma possibilidade excepcional.

Surge no alto de uma montanha um ser andrógino sobrenatural, um mistura de homem e mulher, uma espécie de deus sem um sexo definido (como ele deveria ser de fato).

Ele-ela já estava presente no ato da montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo diriam: “Ah, Ah”. Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.

[…] Uma estrela de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. […] O sino de ouro dobrava pelos suicidas.

E este ser era amado. Mas não despertava apenas bons sentimentos. Sua presença acarretava sentimentos bons e ruins; e fazia surgir o desejo de festa e celebração, que acabava despertando os instintos mais selvagens, com orgias e orgasmos.

Arriscavam tudo, já que fatalmente um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos – fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.

Nada estava proibido naquele ambiente de festa no meio da noite.

Eles queriam amá-la de um amor estranho que vibra em morte.

“Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento”: Goethe.

Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.

E alguns trechos que Clarice insere nesta festa noturna fazem com que pensemos no nascimento de Jesus. A comparação deste ser a uma estrela muito intensa e, depois, a menção aos presentes que Jesus recebeu dos reis magos.

E no silêncio de repente o seu grito uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirava mirra, incenso e benjoim.

Havia a mistura de todos os tipos de pessoas, além de seres exotéricos e mágicos.

A mulher velha e desgrenhada disse para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou te dizer: você não é o dono do próximo segundo de vida, você pode morrer sem saber. A morte te humilhará.

E, de repente, em meio àquele sonho estranho, a data que nos traz de volta ao momento presente, à realidade. E não apenas a data, mas fatos que Clarice cita em relação a ela própria.

Era dia trinta e um de dezembro de 1973.

– Minha vida é um verdadeiro romance! gritava a escritora falida.

A escritora falida abriu o seu diário encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: “7 de julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo, aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua viperina será cortada pela tesoura da complacência”.

O judeu pobre: livrai-me do orgulho de ser judeu!

De repente, o sonho acaba. E o jovem acorda na manhã de domingo, sem se lembrar de tudo o que preencheu seu cérebro enquanto dormia.

E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor, ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que havia sonhado mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com mulher.

É sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.

Epílogo:

Tudo o que escrevi é verdade e existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite? Ninguém sabe. Não tentes responder – pelo amor de Deus. Não quero saber a resposta. Adeus. A-Deus.

 

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