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Conto “O relatório da coisa” de Clarice Lispector

Conto “O relatório da coisa” de Clarice Lispector
Conto “O relatório da coisa” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “O relatório da coisa”, do livro de mesmo nome, “Onde estivestes de noite”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Neste conto, Clarice nos fala sobre um relógio da marca Sveglia. O relógio não é dela, mas ela tem uma admiração pelo relógio (ao menos, foi o que eu consegui compreender), apesar dela demonstrar sua insatisfação com a divisão do tempo.

Nós dividimos o tempo quando ele na realidade não é divisível. Ele é sempre e imutável. Mas nós precisamos dividi-lo. E para isso criou-se uma coisa monstruosa: o relógio.

A marca é Sveglia, o que quer dizer “acorda”. Acorda para o quê, meu Deus? Para o tempo. Para a hora. Para o instante.

Acorda-me, Sveglia, quero ver a realidade. Mas é que a realidade parece um sonho. Estou melancólica porque estou feliz. Não é paradoxo. Depois do ato do amor não dá uma certa melancolia? A da plenitude. Estou com vontade de chorar.

E ela passa a usar a palavra “Sveglia” como um adjetivo, dando características às coisas ou às pessoas ou a determinados eventos. Não existe uma lógica precisa para o que ela chama de “Sveglia” ou não.

Tudo o que ela quer é continuar escrevendo. É como se ela tivesse necessidade de preencher seu vazio através da escrita, mesmo que ela pareça sem sentido.

Me aconteça, Sveglia, me aconteça. Estou precisando de um determinado acontecimento sobre o qual não posso falar. E dá-me de volta o desejo, que é a mola da vida animal. Eu não te quero para mim. Não gosto de ser vigiada. E você é o olho único aberto sempre como olho solto no espaço. Você não me quer mal mas também não me quer bem. Será que também eu estou ficando assim, sem sentimento de amor? Sou uma coisa? Sei que estou com pouca capacidade de amar. Minha capacidade de amar foi pisada demais, meu Deus. Só me resta um fio de desejo. Eu preciso que este se fortifique. Porque não é como você pensa, que só a morte importa. Viver, coisa que você não conhece porque é apodrecível – viver apodrecendo importa muito. Um viver seco: um viver o essencial.

E ela mostra isso claramente ao dizer que quer escrever até uma determinada página, como se fizesse questão de preencher páginas de papel em branco pelo simples prazer de ver as palavras preenchendo o espaço vazio.

Eu queria chegar à página 9 na máquina de escrever. O número nove é quase inatingível. O número 13 é Deus. Máquina de escrever é. O perigo dela passar a não ser mais Sveglia é quando se mistura um pouco com os sentimentos que a pessoa que está escrevendo tem.

Ela não quer se despedir de Sveglia ou a escrita. Ela sente-se dominada e tenta dizer adeus algumas vezes antes de concluir seu texto.

Espera é ou não é? Não sei responder porque sofro de urgência e fico incapacitada de julgar esse item sem me envolver emocionalmente. Não gosto de esperar.

Até dar o adeus finalmente.

Adeus, Sveglia. Adeus para nunca sempre. Parte de mim você já matou. Eu morri e estou apodrecendo. Morrer é.

 

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