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Conto “O primeiro beijo” de Clarice Lispector

Conto “O primeiro beijo” de Clarice Lispector
Conto “O primeiro beijo” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “O primeiro beijo”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este é o último conto do livro “Felicidade Clandestina”. De forma geral, os contos deste livro são muito sensíveis e delicados e remetem a lembranças. Este não é diferente. Outro conto muito bonito.

Dois jovens namorados estão juntos:

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.

— Está bem, acredito que sou sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

E o jovem, tentando contar apenas a verdade, busca uma forma de relatar a experiência anterior que teve.

Ele fazia uma viagem com outros colegas. Todos faziam bagunça no ônibus e o dia ia ficando cada vez mais quente. Não havia água dentro do ônibus e ele sentia sua saliva ficando cada vez mais espessa. O ônibus acabou parando para que eles bebessem água em uma fonte no caminho. O menino, apressado em sua sede desesperadora, correu à frente dos outros para chegar mais rápido ao chafariz.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.

Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E o menino, em sua inocência, ficou confuso. Imaginou que tivesse beijado os lábios de uma mulher. E descobriu sua excitação despertando pela primeira vez na vida.

O que eu achei mais incrível neste conto foi a forma como a Clarice Lispector descreve essa descoberta feita pelo menino. Ela encontrou as palavras certas para dizer de forma velada, mas deixando tudo tão claro.

Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

(…)

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…

Ele se tornara homem.

 

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