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Conto “O morto no mar da Urca” de Clarice Lispector

Conto “O morto no mar da Urca” de Clarice Lispector
Conto “O morto no mar da Urca” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “O morto no mar da Urca”, do livro “Onde estivestes de noite”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Clarice Lispector era uma mulher muito sensível. E o fato de ser sensível torna mais difícil enfrentar situações de sofrimento e perda, como a morte. Mesmo que não seja a morte de um conhecido. A simples privação de anos de vida de alguém jovem pode fazer com que uma pessoa sensível se comova.

Neste conto extremamente curto, ela narra um fato que aconteceu enquanto ela provava um vestido e outras roupas na casa de sua costureira, que ficava na Urca. Vestindo seu vestido novo, amarelo e azul, que seria ajustado, a costureira falou sobre a morte de um rapaz no mar, ao ver o Corpo de Bombeiros.

Ela nos confessa:

Vou contar um segredo: meu vestido é lindo e não quero morrer.

O final da vida da escritora é algo que me intriga. Uma pessoa que viveu repleta de angústias e ansiedades, uma vida cheia de sofrimentos e insatisfações, tem medo de morrer? Quando a morte vai se aproximando, essa pessoa sente alívio ou medo? Será que se apega à vida no fim de sua existência? Eu sei que quando ela escreveu esse conto, ainda não sabia que estava doente. Mas não era mais jovem. Será que nessa fase, ela estava mais alegre, tranquila e, simplesmente, desejando viver?

Mas eu me curvo diante da morte. Que virá, virá, virá. Quando? Aí é que está, pode vir a qualquer momento.

E ela nos mostra um pouco de seu lado místico, que foi ficando mais presente com o passar dos anos:

Mas eu, que estava provando o vestido no calor da manhã, pedi uma prova de Deus. E senti uma coisa intensíssima, um perfume intenso demais de rosas. Então tive a prova, as duas provas; de Deus e do vestido.

Às vezes, eu penso na morte como um alívio para os sofrimentos da vida. E depois, sinto saudades das coisas futuras, como de ver o destino dos meus filhos ou dos livros que deixarei de ler. É meio estranho pensar nisso. Por isso, entendo o pensamento da escritora naquele momento em que soube da morte do jovem no mar.

Mas estava atônita. Atônita no meu vestido lindo.

 

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2 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Oi Silvia

    Vc disse que Clarice experimentou o vestido… Parece que o personagem e a autora sempre se misturam em sua escrita.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Eu achava isso. Sempre acho que o escritor tende a colocar muito de si nas obras. Isso acontece com a maioria dos grandes escritores. Mas só consegui a comprovação das minhas suspeitas depois de ler a biografia dela, escrita por Benjamin Moser. Ele de fato descreve que muitos dos seus contos e livros descrevem muito dela mesma, de suas experiências e vivências pessoais.

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