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Conto “Mineirinho” de Clarice Lispector

Conto “Mineirinho” de Clarice Lispector
Conto “Mineirinho” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Mineirinho”, de uma parte final do livro “A Legião Estrangeira”, que foi chamada “Fundo de gaveta”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este conto (ou quase uma crônica) foi escrito após a notícia da morte do bandoleiro Mineirinho, ocorrido em maio de 1962 no Rio de Janeiro. Coloco abaixo um pequeno trecho publicado no jornal “A noite” de 02/05/1962.

José Miranda Rosa, o “Mineirinho” está morto. Tombou com o corpo crivado de balas de metralhadoras e revólveres calibre 38. Apesar de bandido, era um ser humano como outro qualquer. Após ser chacinado, seu corpo, como se fosse de um animal, foi jogado dentro de um veículo e posteriormente atirado num matagal. Ali permaneceu durante horas. Disto somente alguns policiais sabiam. Não fosse um transeunte dar o alarme da existência, em certo trecho da Estrada Grajaú-Jacarepaguá, de um corpo humano crivado de balas, o cadáver serviria de pasto aos urubus. O caso foi comentado por todas as classes sociais. Sem distinção repudiavam a morte violenta que sofrera o marginal e o destino que a Polícia dera a seu corpo. Após morte tão brutal, os policiais deviam, ao menos, respeitar o cadáver, deixando-o no local onde foi chacinado. Entre revoltados e curiosos, milhares de pessoas formaram extensa fila no Instituto Médico Legal para ver o corpo.

Em seu texto, Clarice fala justamente da indignação face à forma violenta como o bandido foi morto pela Polícia. Ela pede a opinião da empregada, que está ainda mais chocada e mostra imensa simpatia pelo homem assassinado de forma brutal.

Abaixo, um link de uma publicação sobre o caso do bandido:

Crônicas: José Miranda Rosa, o “Mineirinho”

Em 1967, a história de sua vida e de sua morte virou filme, estrelado por Jece Valadão e Leila Diniz.

Essa era uma época bem diferente. As pessoas ainda se chocavam com a violência extrema, viesse por parte dos maus ou dos bons, quem quer que ocupasse cada um dos papeis. A vida humana parecia ter importância, principalmente depois de uma guerra terrível, que matou dezenas de milhões de pessoas no mundo, e em um momento em que a ditadura militar ainda não tinha começado.

Viviam-se os crimes menos brutais, onde as armas pesadas não eram uma realidade e em uma época em que os bandidos ainda tinham medo da polícia.

Hoje em dia, parece que estamos anestesiados. Vivemos em um país no qual ocorrem mais de 50 mil homicídios por ano! O que é isso se não uma guerra disfarçada? Arrastões, tiros à queima roupa em assaltos, crianças e jovens com metralhadoras, pessoas mortas incendiadas… tudo nos parece normal. E se um policial machuca alguém que está cometendo vandalismo em uma manifestação, esse ato vira assunto de primeira página, como se a polícia fosse inimiga e não estivesse presente justamente para nos proteger. O que está acontecendo? Que inversão de valores vivemos? Quando sairemos dessa anestesia e iremos passar a nos chocar novamente com algum crime violento que seja noticiado?

Achamos que aquilo que está longe não nos diz respeito. Mas o mundo está todo ligado. Somos responsáveis pelas crianças que viverão sem casa e sem carinho, adotadas pelos criminosos. Somos responsáveis pelo consumo de drogas, objetos contrabandeados ou pirateados que financiam os bandidos e suas armas. Somos responsáveis ao fecharmos os olhos e nos calarmos ao ver um assalto, fazendo de conta que não estamos vendo, já que aquilo não é conosco. Temos medo e nos calamos.

Aceitamos que nos roubem em cada imposto que pagamos para sustentar indivíduos que vivem no luxo, enquanto a maior parte da população vive na pobreza, sem direito a sonhar com uma vida melhor. Aceitamos as estradas esburacadas, que se tornam agentes de acidentes graves em que morrem milhares de pessoas. Aceitamos a falta de uma atendimento médico decente e a morte por doenças tratáveis. Aceitamos a arma na cabeça, os benefícios para os bandidos, os desvios de dinheiro, achando que qualquer esmola é suficiente.

Precisamos entender que temos que voltar a nos chocar! Que depende de nós se quisermos mudanças, se quisermos tomar as rédeas do destino de um país anestesiado. Quero voltar a me indignar, como a Clarice Lispector se indignou quando leu sobre uma morte violenta, mesmo que essa morte fosse de um bandoleiro.

Sei que saí do assunto do conto (ou crônica). Mas quero algo melhor para mim e para os que vierem depois de mim.

 

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1 Comment
  • Marcia Cogitare disse:

    Silvia, você disse tudo o que precisava – “Precisamos nos chocar”.
    E sair dessa apatia e desesperança que consume nosso país.

    Hug

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