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Conto “Menino a bico de pena” de Clarice Lispector

Conto “Menino a bico de pena” de Clarice Lispector
Conto “Menino a bico de pena” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Menino a bico de pena”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este é mais um conto lindo, sensível e delicado; especialmente para quem tem filhos e vibra ao vivenciar cada uma das conquistas do bebê, como ficar de pé, dar os primeiros passos ou falar as primeiras palavras.

O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro.

Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. (…) O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu autossacrifício.

Da cozinha a mãe se certifica: você está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno.

Com esforço e gentileza ele olha pela sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas lágrimas, o volume branco cresce até ele – mãe! absorve-o com braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no quente e no bom.

Eu li o texto e me emocionei e não sei se sou capaz de comentá-lo da forma como ele merece. Quem tem um filho talvez entenda este meu sentimento.

Como mãe, sempre comemorei e me alegrei com cada conquista dos meus filhos: sentar, engatinhar, ficar de pé, fazer os primeiros sons, aprender a virar as páginas dos livros, compreender as palavras, andar, apontar… cada coisa é única e absolutamente emocionante. E junto a essa alegria que comemora a mágica da vida, vem o medo de que o bebê se machuque em uma tomada, com as panelas do fogão, ao cair da cama, a cada pequeno desequilíbrio quando está sentado quando bate a cabeça no chão e chora mais pelo susto do que pela dor.

Mas mais do que estes pequenos medos cotidianos, que podem ser graves mas são evitáveis na maioria das vezes, vem o desejo íntimo e profundo de não errar como mãe, de estar presente, de dar carinho, de prepará-los para o mundo violento e cruel, de não estragá-los como pessoas, de fazê-los entender que o que uma mãe mais quer é a felicidade dos filhos.

Não é nada fácil. Nada disso é fácil. Porque não somos de outro planeta. Somos mães humanas, com todas as falhas e inseguranças que a humanidade traz consigo.

O que a gente torce é pra não errar demais.

 

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