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Conto “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector

Conto “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector
Conto “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Felicidade Clandestina”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este é um conto curto e absolutamente cativante, especialmente para quem é apaixonada por livros como eu.

Neste conto, fiquei me questionando se a Clarice Lispector está narrando alguma passagem de sua vida. Ela relata sobre uma menina loira, com seus oito anos talvez, apaixonada por livros e que mora em Recife (cidade na qual a escritora passou sua infância).

Uma garota que estudava com ela (e de quem ela certamente não gostava) era filha de um dono de livraria. Apenas este fato despertava uma certa inveja, porque a menina poderia ler qualquer livro que quisesse e, apesar disso, não lia nenhum. E este fato despertava uma enorme indignação.

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

A garota ruiva, talvez para se vingar das outras que eram mais bonitas, nunca dava livros de presente para as outras (apenas cartões postais do Recife) e ainda gostava de se gabar de algum livro novo que ganhasse.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

A possibilidade de ter o livro emprestado causou uma ansiedade extrema na escritora. Ela não via as horas passarem e só pensava no dia seguinte. Mas quando foi buscar o livro, a garota disse que tinha emprestado para outra pessoa e pediu para voltar no outro dia.

E os dias foram se sucedendo, mas a história era sempre a mesma. E embora a escritora pudesse imaginar que ficaria sem o livro quando voltasse à casa da garota, dia após dia, vinha sempre aquela esperança profunda, aquela chama da ansiedade que diz: “e se hoje for diferente?”…

E ela sempre ia. E partia sempre de mãos vazias.

Até que um dia, a mãe da menina é que atende a porta. E tenta compreender o que está acontecendo entre as duas meninas. Em meio a explicações desencontradas, a mãe capta tudo e obriga a filha a emprestar o livro, que nunca tinha saído da casa e que a garota nunca quis ler, e deveria emprestá-lo pelo tempo que a escritora desejasse. Imaginem a felicidade! Eu consegui senti-la em mim!

Quando chega o livro mais desejado, às vezes, uma edição rara, encontrada em um sebo, o único exemplar porque o livro está esgotado em todos os lugares… e posso tocá-lo, senti-lo, cheirá-lo… é algo indescritível! Aquela coisa única de repente lhe pertence e você poderá decifrar todos os segredos que as palavras vão revelar.

Às vezes, fico chocada com as pessoas que não gostam de ler, que não gostam de viajar nas páginas dos livros e sonhar com lugares imaginados pela mente de outra pessoa. Não é apenas como se tirasse férias; é viver na imaginação de outro, talvez alguém que já tenha morrido, captar sua forma de olhar o mundo ou, ainda, descobrir outra forma única de ver o mundo como nem mesmo o escritor sonhou. Não é incrível?

E a escritora foi embora com o livro, como se fosse uma relíquia, segurando com cuidado, abraçando apertado de encontro ao peito. Queria senti-lo e saboreá-lo antes de começar a ler de fato. Uma alegria extrema, nunca antes sentida.

A felicidade sempre iria ser clandestina para mim.

E eu consegui sentir exatamente o que aquela menina estava sentindo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

 

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2 Comments
  • carlos disse:

    Muito obrigado Silvia. É verdade, quando eu tenho um livro há muito tempo aguardado, em minhas mãos , o aroma que se desprende é importante. Um abraço.

    • Silvia Souza disse:

      Os amantes dos livros realmente tem esse apego… o prazer de cheirar, de tocar, de folhear…

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