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Conto “Discurso de inauguração” de Clarice Lispector

Conto “Discurso de inauguração” de Clarice Lispector
Conto “Discurso de inauguração” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Discurso de inauguração”, de uma parte final do livro “A Legião Estrangeira”, que foi chamada “Fundo de gaveta”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Os contos do Fundo de gaveta não são fáceis! Mas eu prometi que faria melhor dessa vez.

Este conto é bastante curto, pouco mais de duas páginas. Ela fala do legado que deixamos para as gerações futuras e o que recebemos de gerações anteriores. Ela começa assim:

… O futuro que estamos aqui inaugurando é uma linha metálica.

É como se estivéssemos deixando algo sem sentido, sem valor, sem um objetivo claro para as gerações que estão por vir.

De forma geral, mesmo nos contos mais antigos da Clarice Lispector, encontro aspectos bastante atuais. Embora a situação da mulher tenha melhorado nas últimas décadas, ainda existem muitas mulheres que sofrem nesse mundo machista, da mesma forma como sofriam na época em que ela escrevia. A natureza humana e os sentimentos mais intrínsecos dos seres humanos continuam os mesmos; por isso, filósofos gregos ainda continuam tão influentes nos dias de hoje.

Mas este conto mostra algo bastante ultrapassado. Acho que nenhum escritor, por mais visionário que fosse, conseguiria antever nosso futuro, a evolução da tecnologia e o quanto estamos sendo mestres em destruir o planeta. Alguns escritores foram muito pessimistas, como Aldous Huxley em Admirável mundo novo. Mas não se previa exatamente o que seria de fato o nosso futuro.

Da mesma forma, Clarice escreveu coisas que não correspondem à realidade (hoje sabemos disso), como:

O que temos tirado para nós mesmos do presente não tem de forma alguma desgastado a eternidade.

O que temos tirado ao longo dos últimos dois séculos vai levar à destruição do planeta se não mudarmos as coisas. Ninguém tinha essa visão no passado, de que precisávamos retribuir tudo aquilo que consumíamos ou que tínhamos que pagar por aquilo de que sempre nos sentimos donos. As coisas não são bem assim.

Não estamos deixando uma herança sem sentido; estamos deixando uma herança maldita e que precisa ser corrigida com urgência, ou essa “linha metálica” estará enferrujada muito antes de atingir um ponto qualquer e estaremos todos mortos dentro dela.

Mas ela soube dizer verdades também:

Derrotados por séculos de paixão, derrotados por um amor que tem sido inútil, derrotados por uma desonestidade que não tem dado frutos – nós investimos na honestidade como sendo mais rendosa e criamos a linha do mais sincero metal. Legaremos um duro e sólido arcabouço que contém o vazio.

E a verdade absoluta:

E que viver é missão suicida.

 

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1 Comment
  • Marcia Cogitare disse:

    Vc falou sobre deixar uma herança sem sentido. Talvez este seja nosso último dos medos.
    Ter vivido uma vida opaca e sem sentido.

    Hug

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