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Conto “Cem anos de perdão” de Clarice Lispector

Conto “Cem anos de perdão” de Clarice Lispector
Conto “Cem anos de perdão” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “Cem anos de perdão”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este é outro conto sensível, em tom de memórias, que faz com que a gente sinta saudade da infância e da ingenuidade que a acompanhava.

A narradora relata algumas traquinagens de quando ela criança, em que ela roubava rosas. Ela brincava com uma amiga por um bairro elegante de Recife e elas dividiam as casas entre elas. Até que a menina viu em uma das casas mais elegantes um jardim maravilhoso e uma rosa única.

Ela se apaixonou pela rosa e sentiu o desejo súbito e incontrolável de possuí-la.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo do meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la.

A menina resolveu entrar no jardim enquanto a amiga vigiava. E ajudada pelo anjo dos inocentes, ninguém a viu praticando seu ato condenável.

O que é que eu fazia com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas.

E ela também passou a roubar pitangas. Como é boa a lembrança de comer pitangas colhidas do pé, madurinhas, vermelho-alaranjadas, doces, delicadas… Existem frutas que só deveriam ser comidas do pé, roubadas ou não, como as pitangas, as amoras e as jabuticabas. São minhas lembranças de infância, como da narradora do conto.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para se colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

 

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6 Comments
  • mariel disse:

    Essa menina, a Clarisse, como escreve. Sempre bom vir por aqui

  • Marcia Reis disse:

    Tão legal quando vc se integra com a experiência no conto. Sempre achei que S crianças que viveram suas infâncias com contato com a natureza, aproveitaram mais.
    Me parece que esse foi seu caso.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Marcia!
      Foi bem isso mesmo… cresci em uma cidade pequena do interior, frequentando as casas de várias tias, com muito quintal, em fazendas, animais de todos os tipos…
      Sinceramente, acho que minha infância foi muito feliz!
      Beijo!

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