Now reading

Conto “As águas do mundo” de Clarice Lispector

Conto “As águas do mundo” de Clarice Lispector
Conto “As águas do mundo” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “As águas do mundo”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Não sei se saberei comentar muita coisa sobre este conto, mesmo tendo me identificado com ele e gostado demais. Mas ele é muito sensorial. E teria aqui que descrever minhas sensações. Não sei se consigo transformá-las em palavras. O primeiro parágrafo já diz muito:

Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Não é lindo?

O conto narra como essa mulher, sozinha na praia (apenas um cão está por perto), às seis horas da manhã, vai perceber em seu corpo todas as sensações que a água fria do mar é capaz de desencadear.

Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se põe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

E eu me senti como essa mulher. Uma mulher que está perdida, sozinha, desvalorizada… uma mulher a quem ninguém escuta, como se ela não tivesse nada de importante a dizer. Ela olha para o futuro e não vê nada que valha a pena. Ela precisa se sentir amada, acariciada, preenchida. Em um momento de desespero, de forma quase inconsciente, ela vai para o mar. Ao chegar, no final da madrugada, começo da manhã, já escuta o som constante e repetitivo que começa a acalmá-la. Sente a brisa fria e vê o sol que começa a surgir no horizonte. Percebe a liberdade do cão que caminha sozinho na praia. E decide entrar no mar. Sente a água gelada e salgada na pele, a água que gruda e acolhe; o brinde de Deus em sua pele, levando embora todas as suas angústias. Depois engole um pouco daquela água que desce raspando em sua garganta e purificando seu caminho. Ela molha os cabelos e está batizada pela Natureza. E ela percebe que tem capacidade de continuar; que ainda tem coragem de viver. Que pode retomar sua vida e mudá-la da forma que lhe convier.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

 

Written by

1 Comment
  • Marcia Cogitare disse:

    Sabe que eu também tive a maior dificuldade de escrever sobre este conto.
    Mas você observou bem, é um conto puramente sensorial.

    Hug

Instagram
  • #miguelestevescardoso #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #cesarecantú #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #thubtenchodron #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #albertcamus #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #lamatseringeverest #citações #budismo #reflexõesdesilviasouza