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Conto “A procura de uma dignidade” de Clarice Lispector

Conto “A procura de uma dignidade” de Clarice Lispector
Conto “A procura de uma dignidade” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “A procura de uma dignidade”, do livro “Onde estivestes de noite”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este conto já tem início com uma coisa, no mínimo, curiosa. A personagem não tem um nome dela; ela é identificada por ser a esposa de alguém: Sra. Jorge B. Xavier. Na minha opinião, isso já diz muito sobre a mulher e sobre sua personalidade. Ela não é confiante em si mesma, não é segura e, em parte, vem do fato de ser uma “propriedade”. Quem não ter direito a ter um perfil independente de outra pessoa, não pode ser, não pode existir por si mesma.

A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como entrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se estivesse entrando de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro.

De repente, ela se vê perdida nos corredores do Estádio do Maracanã, procurando por uma sala onde, supostamente, haveria a aula inaugural de um curso. Ela andava, cada vez mais insegura. Acabou encontrando um funcionário que não sabia nada sobre aula ou curso, mas dizia ter visto algumas pessoas perto de uma das arquibancadas. As pessoas não estavam mais lá e eles passaram a buscá-las entre os corredores; elas eram vistas e, logo depois, perdidas novamente.

E de fato de muito longe ambos os viram. Mas um segundo depois tornaram a desaparecer. Parecia um jogo infantil onde gargalhadas amordaçadas riam da Sra. Jorge B. Xavier.

Em meio à sua angústia e buscando uma saída daquele labirinto, ela acabou se lembrando das instruções da amiga para o local da aula. Neste parágrafo, que transcrevo a seguir, novamente a demonstração da falta de confiança da mulher em si mesma; uma mulher acostumada a apenas seguir o marido, que nunca deve tê-la valorizado como uma pessoa.

Então eis que subitamente lembrou-se das palavras de informação da amiga pelo telefone: “fica mais ou menos perto do Estádio do Maracanã.” Diante dessa lembrança entendeu o seu engano de pessoa avoada e distraída que só ouvia as coisas pela metade, a outra ficando submersa. A Sra. Xavier era muito desatenta.

Ela consegue, a muito custo, sair do labirinto dos corredores do estádio e resolve pegar um táxi para levá-la ao curso.

— Moço, não sei bem o endereço, esqueci. Mas o que sei é que a casa fica numa rua – não-me-lembro-mais-o-quê mas que fala em “Gusmão” e faz esquina com uma rua se não me engano chamada Coronel-não-sei-quê.

O taxista consegue, com muita paciência, encontrar o endereço onde estava acontecendo a aula. Ela não conseguiu assisti-la, por causa de seu atraso e porque acabou perdendo a vontade. Novo táxi para levá-la para casa. Seu marido tinha viajado no dia anterior e voltaria apenas no dia seguinte. Ela sentia o vazio de sua existência e como não era mais capaz de mudar seu destino.

A Sra. Jorge B. Xavier era ninguém.

Ela se agarrava ao seu amor platônico por seu ídolo, Roberto Carlos, e fantasiava encontrá-lo, como se essa fantasia fosse sua boia salva-vidas, a razão da sua existência.

Senti o que essa mulher sentia no conto: já avançada em anos, sem uma vida própria, sem nem mesmo um nome que a identificasse, apenas a esposa de alguém, olhando para sua história e não tendo nada do que se orgulhar; nenhum fato que pudesse mostrar que ele deixou uma marca no mundo. Uma mulher que viveu e nunca existiu. Uma mulher que foi sempre se anulando, se calando, se diminuindo, como se suas ideias fossem sempre sem valor.

É um conto triste de uma mulher que não enxerga uma saída. Mais o que me entristece de verdade é que não se trata apenas de uma obra de ficção; essa foi a vida de inúmeras mulheres ao longo de tantas e tantas décadas ou séculos; essa é a vida de muitas mulheres ainda hoje em dia.

 

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2 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Terrivelmente angustiante este conto.

    Vc tem frisou que a pobre mulher nem nome tinha, era uma posse de alguém.

    O que fazer para ser algo diferente?

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      A Clarice Lispector tem essa capacidade de mostrar todos os aspectos das mulheres.
      Ela mesma, embora quisesse ser uma escritora livre e independente, sentia-se amarrada às exigências que a sociedade impunha às mulheres…
      Acho triste…

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