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Conto “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos” de Clarice Lispector

Conto “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos” de Clarice Lispector
Conto “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é A pecadora queimada e os anjos harmoniosos, de uma parte final do livro “A Legião Estrangeira”, que foi chamada Fundo de gaveta.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Este conto lembra os textos teatrais antigos em forma de autos. Ele aborda uma mulher adúltera que será punida por seu crime na fogueira. Os personagens que falam são:

  • Anjos invisíveis – Anjos nascendo – Os anjos nascidos
  • Sacerdote
  • Povo – Persongem do povo
  • Criança com sono
  • Mulher do povo – Mulheres do povo
  • 1º guarda
  • 2º guarda
  • Esposo
  • Amante

A mulher foi condenada por seu adultério e o sacerdote deseja queimá-la na fogueira o mais rápido possível. O povo é apenas um expectador, interessado na distração que a vida alheia representa.

O amante parece o único interessado em fazer alguma defesa da mulher, a quem ainda ama. Ele apenas guarda alguma mágoa pelo fato de ter tido que dividi-la com outro homem, homem para quem ela devia sempre retornar. O marido, apesar da traição e da infidelidade que teve que enfrentar, não parece particularmente desejoso da morte da esposa. Os dois homens, que sentirão a falta dela, não têm voz ativa na defesa, já que a mulher já foi considerada culpada e o povo quer vê-la sendo punida.

Como é fácil julgar e condenar os outros, não é verdade? Gostamos de criticar sem que saibamos os fatos verdadeiros, sem que saibamos as motivações, os problemas, os sofrimentos… nada importa. O que importa é olhar para a vida dos outros, julgar de forma leviana, propagar os boatos… tudo para que não tenhamos tempo de olhar para nossa própria vida, nossos problemas, os ajustes e mudanças que precisam ser feitos, as conversas sérias que ficam sendo adiadas. Não olhamos para nossos erros, nossa intolerância, nossa forma de ignorar as pessoas que sofrem, passam frio e fome à nossa volta… Isso tudo nos incomoda. E não queremos ser incomodados.

Queremos viver nossas vidas enxergando apenas aquilo que fazemos de bom, acreditando que teremos direito aos benefícios de uma vida eterna e confortável, já que não matamos, não roubamos (nunca fomos flagrados) e não fomos nós que cometemos o pecado do adultério. Como é fácil manter as aparências de uma vida incompleta e rasa, perfeita aos olhos dos outros e sem significado se fizéssemos uma análise verdadeira. Mas é justamente essa análise que não queremos fazer.

Seguimos olhando nossos vizinhos (ou qualquer desconhecido que passe por nós no meio da rua), julgando-os pela aparência, pelas roupas, pela forma de andar, sem saber o que lhes aconteceu na véspera do encontro casual.

A vida prega peças. Nunca saberemos quando seremos nós mesmo enfrentando o julgamento e esperando pela punição na fogueira. Por mais que tenhamos controle dos nossos atos, podemos nos surpreender com reações inesperadas quando enfrentamos situações nunca imaginadas.

Embora eu não goste muito do tipo de escrita teatral, este conto me fez pensar em como o mundo seria melhor se olhássemos mais para nós mesmos e menos para os problemas alheios.

Uma reflexão para todos.

 

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2 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Realmente é muito fácil ostentar um olhar julgador sobre os outros e usar um olhar mais brando consigo mesmo.

    Somos uns bobões, este texto mega irônico nos lembra quem somos de fato.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Acho que a Clarice tem sempre essa capacidade, com uma ironia sutil, uma escrita maravilhosa, ela nos mostra quem somos, em nosso melhor e em nosso pior…

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