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Conto “A partida do trem” de Clarice Lispector

Conto “A partida do trem” de Clarice Lispector
Conto “A partida do trem” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “A partida do trem”, do livro “Onde estivestes de noite”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Neste conto, ocorre o confronto entre uma mulher mais velha e outra mais nova. A mais velha tem um nome longo, representando seus muitos anos de existência: Dona Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo. A mais nova é Angela Pralini, a mesma personagem que aparece no livro “Um sopro de vida“. Angela tem muitas características que remetem à própria Clarice; entre elas, perdeu a mãe aos 9 anos e tem um cachorro chamado Ulisses.

Angela fugia do homem que amava, porque ele não demonstrava amor por ela.

Angela lembrou-se do bilhete que deixara para Eduardo: “Não me procure. Vou desaparecer de você para sempre. Te amo como nunca. Adeus. Tua Angela não foi mais tua porque você não quis.”

E Dona Maria Rita mudava da casa da filha para a casa do filho. Ninguém a queria por perto, mas ela tentava encontrar seu próprio valor.

“Sou velha mas sou rica, mais rica que todos aqui no vagão. Sou rica, sou rica.” (…) “Sou muito rica, não sou uma velha qualquer.” Mas sabia, ah bem sabia que era uma velhinha qualquer, uma velhinha assustada pelas menores coisas. Lembrou-se de si, o dia inteiro sozinha na sua cadeira de balanço, sozinha com os criados, enquanto a filha public relations passava o dia fora, só chegava às oito da noite, e nem sequer lhe dava um beijo.

A viagem de trem se passa com poucos diálogos entre as duas mulheres, mas com muitos pensamentos de cada uma delas.

Desde que descobrira – mas descobrira realmente com um tom espantado – que ia morrer um dia, então não teve mais medo da vida, e, por causa da morte, tinha direitos totais: arriscava tudo.

Dona Maria Rita era tão antiga que na casa da filha estavam habituados a ela como a um móvel velho. Ela não era novidade para ninguém. Mas nunca lhe passara pela cabeça que era uma solitária. Só que não tinha nada para fazer. Era um lazer forçado que em certos momentos se tornava lancinante: nada tinha a fazer no mundo. Senão viver como um gato, como um cachorro.

Mas quando se trata da vida mesmo – quem nos ampara? pois cada um é um. E cada vida tem que ser amparada por essa própria vida desse cada-um. Cada um de nós: eis com que contamos.

“Eduardo”, pensou ela para ele, “eu estava cansada de tentar ser o que você achava que sou.”

Angela Pralini tinha pensamentos tão fundos que não havia palavras para expressá-los. Era mentira dizer que só se podia ter um pensamento de cada vez: tinha muitos pensamentos que se entrecruzavam e eram vários. Sem falar no “subconsciente” que explode em mim, queira eu ou não queira você.

Existem contos de Clarice Lispector que não consigo comentar bem. Alguns que são tão perfeitamente escritos nos sentimentos que eles descrevem que não consigo usar minhas palavras; preciso mostrar as frases e parágrafos da escritora usados para descrever o íntimo das pessoas. Este é um deles. As duas mulheres no trem, sentadas face a face, quase sem se falar, perdidas em seus próprios pensamentos e sensações.

E, em um determinado momento, a própria Clarice entra no conto. E, como se não bastasse, ela incorpora neste conto a personagem do conto anterior, a Sra. Jorge B. Xavier.

A velha era anônima como uma galinha, como tinha dito uma tal de Clarice falando de uma velha despudorada, apaixonada por Roberto Carlos. Essa Clarice incomodava. Fazia a velha gritar: tem! que! haver! uma! porta! de saííída! E tinha mesmo. Por exemplo, a porta de saída dessa velha era o marido que voltaria no dia seguinte, eram as pessoas conhecidas, era a sua empregada, era a prece intensa e frutífera diante do desespero.

Enfim, suspirou ela, as coisas são como são. Tinha às vezes, quando olhava do alto de seu apartamento, vontade de se suicidar. Ah, não por Eduardo mas por uma espécie de fatal curiosidade. Não dizia isso a ninguém, com medo de influenciar um suicida latente. Ela queria a vida, vida plana e plena (…) O fantasma da loucura nos ronda. Que é que você está fazendo? Estou esperando o futuro.

Clarice parece de outras formas também. Aparece com suas dores, seus sofrimentos e seu passado triste.

Como viver magoava. Viver era uma ferida aberta. (…) Angela estava amando a velha que era nada, a mãe que lhe faltava. Mãe doce, ingênua e sofredora. Sua mãe que morrera quando ela fizera nove anos de idade. Mesmo doente mas com vida servia. Mesmo paralítica.

Naturalmente isso não tinha a menor importância: há pessoas que são sempre levadas a se arrepender, é um traço de certas naturezas culpadas. Mas ficou-a perturbando a visão da velha quando acordasse, a imagem de seu rosto espantado diante do banco vazio de Angela. Afinal ninguém sabia se ela adormecera por confiança nela.

Confiança no mundo.

 

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